quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Dançando por amor...


Meu amigo Vitor Hugo fez um comentário no texto que escrevi, Aprendendo a dançar, que me lembrou uma reflexão de Stott em seu devocionário A Bíblia toda o ano todo[1]. Stott medita sobre o texto de 1Co 8.1[2], onde temos a questão se o cristão pode ou não comer a carne que outrora foi usada em rituais pagãos. Os fortes sabiam que os ídolos não significavam nada, por isso comiam. Já os fracos, provavelmente recém convertidos que ainda estavam habituados com a idolatria, queriam servir fielmente a Deus apartando-se de tudo que “cheirasse” idolatria.

Ambos estavam corretos, pois de fato os ídolos nada significam, por isso pode-se comer a carne. Correta também é a atitude de não se pactuar com os deuses. No caso dos fortes, o conhecimento precisava ser temperado com amor e no caso dos fracos, o amor a Deus precisava ser fortalecido com mais conhecimento. Stott diz:

“O conhecimento traz liberdade (v. 4-8). [...] Logo o amor deve ser um limitador da liberdade (v. 9-13). Se alguém de consciência fraca vê você (uma pessoa de conhecimento) comendo acintosamente em um templo pagão, pode ser induzido a seguir seu exemplo, e ficar com a consciência ferida. [...] a partir desse antigo debate, duas verdades permanecem. Primeiro, as consciências devem ser respeitadas. Elas não são infalíveis. Precisam ser educadas, não feridas. [...] Segundo, o amor limita a liberdade. Nossa consciência, educada pela palavra de Deus, nos da grande liberdade de ação. No entanto, isso não significa que podemos defender a nossa liberdade à custa de outras pessoas. O conhecimento dá liberdade, mas o amor a limita”.[3]

Creio que essa proposição de certa forma norteia a atuação do teólogo na comunidade. Ou seja, eu danço a música por amor, me limito a fim de ensinar o de consciência fraca. Aqui não está em questão o ser melhor ou pior, mas o conhecimento teológico a respeito de Deus. Todos os membros da comunidade pensam teologicamente Deus, e esse pensar determina seu agir. A função do teólogo, ou do educador cristão, é saber comungar a fé com o fraco e, em amor, fortalecer seu conhecimento a respeito de Deus. Esse processo deve ser lento e não invasivo (é aqui que peco constantemente).

Não ignoro o fato de que, em alguns casos, acontecerá o choque, a crise e a divergência, pois existem fracos que se acham fortes e fortes que na verdade são fracos. Outro fator de conflito é a mudança da liderança, pois em igrejas episcopais, é o líder quem “da a cara” da igreja, “escolhe a música” e dita as normas. Os líderes mudam constantemente e sempre deixam suas marcas na comunidade, por isso, o teólogo sempren deve estar ao lado da comunidade, apontando para a palavra de Deus.
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[1] STOTT, John. A Bíblia toda o ano todo: meditações diárias de Gênesis a Apocalipse. Viçosa, MG: Ultimato, 2007. p. 363.
[2] Com respeito aos alimentos sacrificados aos ídolos, sabemos que todos temos conhecimento. O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica.
[3] STOTT, John. A Bíblia toda o ano todo: meditações diárias de Gênesis a Apocalipse. Viçosa, MG: Ultimato, 2007. p. 363.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Aprendendo a dançar

“Como acredita o homem, em sua juventude, estar tão perto de seu objetivo! É a mais bela de todas as ilusões com a qual a natureza ampara a fraqueza de nosso ser.” Hölderlin (1797).

Como ainda não cheguei aos 29 anos, sou jovem, de acordo com a ONU. Sou um jovem que a 5 anos entrou numa faculdade de Teologia para melhor servir ao Reino de Deus, inclusive, diga-se de passagem, agora são 2h10 am, e acabei de assistir ao dvd da minha formatura, entre muitas coisas, vi o juramento que fiz antes de colar o grau, e nesse juramento eu disse que serviria a comunidade de fé no que ela precisasse. A foto acima era a paisagem que eu tinha da janela do meu quarto no seminário.

Há menos de dois anos servindo na comunidade, eu cheguei num ponto onde: ou eu me escondo atrás dos livros e me aprisiono na torre de marfim, ou “engulo” alguns sapos e sigo crendo que o teólogo é importante na comunidade. Como disse um de meus mentores: “ou tu agüenta ou tu se estraga; para agüentar precisas engolir o sapo, digerir o sapo e defecar o sapo, para se estragar, basta sair da comunidade”.

De fato, ou eu sirvo a comunidade de fé onde adoro a Deus ou finjo ser teólogo, pois não creio existir teólogo sem comunidade, já o contrário infelizmente acontece! É nesse servir a comunidade que está a minha dificuldade, pois ao servi-la, descubro que não é ela que se molda a mim, mas eu é que me moldo a ela, é ela quem dá as cartas, é ela que formata! Se é a comunidade que toca a música, qual será então o meu papel? Seria o meu papel dançar da melhor maneira possível? Não sei...só sei que não posso falar tudo o que penso, muito menos reclamar da altura do som.

Ao lembrar de minha formatura, tento resgatar aquele entusiasmo que me levou a estudar teologia, aquela paixão de querer trabalhar na causa do Reino, e tento espantar a dura realidade de que servir ao reino de Deus, no meu caso, é servir a uma comunidade local.

O que me deixa feliz e triste nessa história? Ainda sou jovem...

“Oh, o homem é um deus quando sonha, mas um mendigo quando reflete; e, quando o entusiasmo acaba, ele fica ali parado, como um filho desgarrado, expulso da casa paterna, observando o miserável centavo que a compaixão jogou em seu caminho” Hölderlin (1797).

“Se alguma vez chegamos a admitir as nossas deficiências, fazemos isso por vaidade” La Rochefoucald (1665).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Aqui eu Mando! parte 2 e final

Na segunda parte dessa reflexão (leia a primeira aqui) sobre os acontecimentos na EBD de uma igreja em Joinville quero esclarecer dois pontos antes de falarmos sobre Autoridade e Poder num viés bíblico e não meramente sociológico como na primeira parte.

1 – Quando disse que o pastor saiu de férias, de forma alguma quis dar a entender que ele abandonou a igreja ao acaso, pelo contrário, como ser humano, pastor também deve desfrutar de férias. Quando escrevo que ele saiu tranqüilo, é porque confiava na pessoa que colocara a frente do trabalho. Tanto que quando o pastor voltou, colocou ordem na casa!

2 – Não tenho nada contra a pessoa que denominei Irmão Mandão, somente contra sua atitude e nem por isso o culpo, pois ele é filho de um sistema onde esse tipo de liderança funcionava.

Vamos ao que interessa!

Quais definições bíblicas de poder e autoridade? A resposta será breve, contudo técnica, mas espero que seja esclarecedora.
Autoridade vem do grego exousia – ex – para fora de / ousia – ser, sendo assim, autoridade no sentido puro da palavra grega é aquilo que é inerente ao ser e dele emana (sai para fora). Exousia é utilizada na Bíblia de maneira bem diversa, sendo ora traduzida como direito de agir, habilidade, poder, poder absoluto, autoridade exercida por governantes, etc.[1]. Mas na maioria das vezes seu significado é teológico, e, em última análise, somente Deus possui plena autoridade, sendo que a autoridade que os homens possuem foi delegada por Deus.[2] Sobre obediência as autoridades, leia aqui.
Poder vem do grego dynamis que também é traduzido como força, energia, habilidade, ato poderoso, etc.[3]

Na mesma passagem bíblica onde diz que Cristo recebeu toda a autoridade também diz que ele comissionou seus discípulos para fazerem sua obra (Mt 28.16-20). E no texto áureo de Atos, Cristo diz que receberemos poder para sermos suas testemunhas (At. 1.8), ou seja, a autoridade de Jesus Cristo nos dá poder mediante o Espírito Santo habilitando-nos para a obra de Deus.

Então temos de nos perguntar como Cristo utilizou sua autoridade e poder[4], pois ela servira de molde para nossa ação enquanto discípulos habilitados com poder para testemunhar o evangelho da paz.

Cristo exerceu sua autoridade para perdoar pecados, expulsar espíritos maus, vocacionar discípulos, etc. O que fica claro é que todas as atitudes de Cristo eram regidas pelo amor, Ele usou de autoridade para manifestar amor.
Na tentação ele poderia utilizar o poder para fazer coisas boas, mas elas seria desprovidas de relacionamentos.... assim nosso irmão Mandão quer fazer coisas boas na comunidade, mas está desprovido de amor, e sem amor, o poder destrói.

No evangelho de Lucas, em suas primeiras utilizações, o termo poder refere-se ao poder do Altíssimo que faz uma mulher ficar grávida. Nesse sentido poder refere-se a fecundação que é fruto de intimidade, reciprocidade, quando não é dessa forma é violência, invasão. E o segundo momento onde o termo é empregado é na tentação de Jesus no deserto.

Todas as tentações do diabo instigavam Jesus a utilizar o seu poder, Jesus poderia utilizar seu poder para transformar muitas pedras em pão, e assim, alimentar multidões, governar as nações com poder e equidade e ao ser salvo pelos anjos demonstrar que todos podem confiar em Deus. Mas ele diz não a cada tentação, pois, segundo Peterson, essas manifestações de poder estariam sem o invólucro do amor, seriam o poder aplicado a força, sem contexto de relacionamento e amor, seria um poder por imposição.[5]

E poder do Espírito não acontece por força e violência, de forma impessoal, mas sempre exercido de forma pessoal, com base em relacionamentos. O poder do Espírito Santo não é coercitivo. Depois de ser tentado, Jesus, sempre no poder do ES, sai pelas ruas da Palestina, alimentando famintos, fazendo justiça e utilizando milagres para evangelizar, sempre no contexto da relação, do pessoal e do amor.[6]

Se Jesus Cristo é nosso paradigma de como utilizar o poder que nos foi dado, não preciso falar mais nada.
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[1] GINGRICH, F. W.; DANKER, F.W. Léxico do N.T. grego/português. 1 ed. São Paulo: Vida Nova, 1984. p. 77.
[2] JUDGE, E. A. In: DOUGLAS, J. D. O novo dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 171-173.
[3] GINGRICH, F. W.; DANKER, F.W. Léxico do N.T. grego/português. 1 ed. São Paulo: Vida Nova, 1984. p. 60.
[4] Autoridade e Poder se encontravam no ministério terreno de Cristo, pois era homem e Deus simultaneamente.
[5] PETERSON, Eugene H. A maldição do Cristo genérico: a banalização de Jesus na espiritualidade atual. São Paulo: Mundo Cristão, 2007. p. 315-316.
[6] PETERSON, Eugene H. A maldição do Cristo genérico: a banalização de Jesus na espiritualidade atual. São Paulo: Mundo Cristão, 2007. p. 317.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Aqui eu Mando!


Queridos leitores, como perceberam, não escrevi faz um bom tempo, o motivo é simples: falta o tão precioso ócio! Mas para aqueles que visitaram o blog e nada de novo encontraram, espero que tenham lido os textos antigos, afinal, texto velho, é novo para quem não leu. Vem-me a mente figuras como Lutero: como ele, mesmo sendo perseguido, conseguia escrever tanto? e eu, vida aparentemente tranqüila, mal consigo atualizar um blog! Realmente, não sou um novo reformador...

Mas vamos ao que interessa, quero compartilhar com vocês uma situação que aconteceu tempos atrás em uma igreja pentecostal da cidade de Joinville. Tal situação gerou uma reflexão em mim, e o estrato dessa reflexão, divido com vocês.

O pastor dessa igreja, querendo maximizar o departamento de Escola Dominical (daqui pra frente EBD), convida um obreiro antigo da congregação para tal tarefa, afinal, ele já a desempenhou em anos anteriores. Esse obreiro, que darei o pseudônimo de Irmão Mandão, recebeu carta branca, ou seja, fazer o que achar melhor, do pastor para otimizar a EBD. Tranqüilo, o pastor saiu de férias, e o Mandão começa a executar seu plano de ação.

No primeiro domingo a frente da comunidade, já começou a trazer de volta práticas há muito tempo caducadas na EBD daquela igreja. Por meia hora subjuga a congregação com seu discurso bélico de que antigamente era assim, era assado, e vai ser como eu quero. Uma de suas ordens era: as classes devem retornar exatamente as 10h15, nem um minuto a mais nem um a menos. Umas das classes ficou com tanto receio, que retornaram as 10h10, sabe o que Mandão fez na frente de toda congregação? “irmã pode voltar pra sala, eu falei 10h15”. A “coitada” nem “piou”, voltou correndo para sua sala, provavelmente suando a cada tic tac do relógio. Outra turma chegou 10h16, pouparei vocês do que aconteceu....enfim, por algum tempo foi dessa forma, uma ditadura em nome Jesus para o crescimento da EBD. A congregação reagiu, mas nos bastidores, nos cochichos de fim do culto, acuadas pelo axioma: “quem falar mal do homem de Deus será comida de bicho”.

Surge a pergunta: ele tem poder ou autoridade sobre a congregação? Segundo o sociólogo Weber, ele tem poder. Para Weber poder é a capacidade de obrigar, devido a sua posição dentro de uma hierarquia, os outros a obedecerem a sua vontade (Faça isso, eu estou mandando, se não...?). Autoridade é diferente, é levar as pessoas a fazerem, de bom grado, sua vontade, é influência sem coerção. Poder se compra ou se ganha, mas autoridade não, pois ela faz parte da essência da pessoa.[1]

Esse paradigma velho de liderança em igrejas pentecostais se explica facilmente, pois a influência coronelista foi forte no desenvolvimento do movimento no Brasil. Contudo, os tempos mudaram, e lideranças assim já não impressionam mais, caducaram. O Mandão da nossa história quer resolver no grito a situação, quer chegar no final e dizer: pastor está aí o que você pediu, a EBD cresceu, eu fiz acontecer. Ele não compreende que liderar é influenciar pessoas, é despertar o potencial de cada um, é levar todos em direção ao alvo, é um caminhar junto onde todos cruzam a linha de chegada.

Semana que vem compartilharemos uma breve análise destes termos, poder e autoridade, bem como a compreensão de poder a partir dos escritos de Lucas. Até lá!

[1] HUNTER, J. Como se tornar um líder servidor: os princípios de liderança de o monge e o executivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2006. p. 31-32.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Ano Novo, pessoa nova?


Se existe “alguém” que recebe promessas é o ano novo. Sempre fazemos votos de que tudo será melhor, diferente. Fazemos muitas promessas a nós mesmos, aos outros e a Deus. Parece que tudo vai mudar no ano que vem num passe de mágica. Mas a realidade nua e crua é: o ano é novo, mas nós continuamos os mesmos. Não é novidade para ninguém que um ano novo, um carro novo, um companheiro novo ou companheira nova, não tornam ninguém novo, diferente, doce ilusão!

Mudanças em nosso ser não dependem de calendário, mas de atitude, paciência e fé. Se magoei alguém, não é a noite da virada que trará o perdão e a reconciliação, mas a humilhação, o pedir perdão, e isso não se anota na agenda. A mudança de mente (metanóia) operada por Deus em nós não pode estar presa ao reveillon, ao “ano que vai nascer”. Por que se dessa forma, mudanças significativas em nossa vida só aconteceriam depois do carnaval.
Então desejo a você um feliz ano novo, e adeus “homem” velho...mas lembre-se, mudanças significativas podem acontecer a qualquer momento, basta dar meia volta.


uma boa mudança...

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Deus desceu para subir...


“Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino”. L. Boff.

Penso que essa frase do teólogo Leonardo Boff sintetiza brilhantemente o Natal, onde a humanidade é abalada com a irrupção do Reino de Deus no seio de sua história. Enquanto os homens funestamente buscaram a divinização como meio de salvação, paradoxalmente Deus tornou-se humano em Cristo para salvar. Gosto das palavras de Lewis:

“De acordo com a história cristã, Deus desce para voltar a subir. Ele desce das alturas da existência absoluta no tempo e espaço à humanidade. [...] ele desce para subir de novo, trazendo consigo todo o mundo arruinado. Isso nos faz pensar em um homem forte abaixando-se cada vez mais para colocar-se debaixo de um grande e complexo fardo. Ele deve abaixar-se para o levantar, quase desaparecendo sob a carga, antes de endireitar incrivelmente as costas e seguir avante com toda a imensa massa balançando em seus ombros.”[1]

O Natal então anuncia essa descida de Deus, esse evento inaudito: O Todo Poderoso tornando-se matéria, entrando no tempo e no espaço, expondo-se a morte, tornando-se homem! Eu me pergunto: o que é salvífico em Cristo, sua encarnação? Sua morte? Ou sua ressurreição? Boff defende a idéia de que tudo em Cristo é salvífico, sua encarnação, vida, morte e ressurreição.[2]

Faço coro com ele e sugiro que nesse Natal pensemos holisticamente Cristo, começando pelo seu nascimento, passando por seus ensinamentos, velando seu sofrimento, alegrando-se com seu ressurgimento, esperando pelo arrebatamento.

A você querido leitor, um Feliz Natal!

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[1] Um ano com C. S. Lewis. Viçosa: Ultimato, 2005. p. 398.
[2] BOFF, Leonardo. Paixão de Cristo paixão do mundo. 5 ed. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 110.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Diaconia, o amor em ação!


A passagem de Lc 22.27 que diz: “Pois qual é o maior: quem está à mesa ou quem serve? Porventura, não é quem está a mesa? Pois no meio de vós, eu sou como quem serve (diakonein)” (ARA).

Sem o invólucro parenético dos vv. 24-26, provavelmente remonte a uma palavra proferida por Jesus durante a última ceia. Surge a pergunta: mas qual é a maneira de Jesus Cristo servir? O que afinal ele fez? No contexto direto da última ceia não fez nada! Pelo menos não se encontra em lugar algum que ele esteja servindo concretamente seus discípulos à mesa. Pode-se afirmar com certeza que ele encontra-se nos últimos momentos de sua caminhada, não podendo empreender mais nada. Resta-lhe sofrer esse dia até o fim. Consegue ainda produzir algumas palavras dirigidas aos discípulos, sendo que, até isso é muito breve. Concomitantemente, é precisamente essa situação que confere a declaração de Jesus Cristo uma forma extremamente marcante: Ele presta o maior serviço a seus discípulos justamente pelo fato de só poder ainda sofrer o que Deus lhe impôs.

As duas perguntas constatam mais uma vez que agora, eu seu ser diaconal, Cristo precisamente não é o maior, ele com essa declaração inverte radicalmente no contrário tudo que até agora vigorava. Quem agora é decisivo é Aquele que não possui nem poder nem fama, Aquele a quem tão somente resta morrer impotente e ridicularizado por todos.[1]

Levar a sério as palavras de Cristo é admitir que o serviço diaconal mais importante será aquele realizado por quem está mais tolhido no grupo dos discípulos, e que não consegue mais assumir um serviço diaconal no sentido corrente, ou seja, todos eles são incapazes de realizar o serviço diaconal primordial para religiosidade da época, a saber, o sepultamento do Mestre. É alguém de fora que realiza-lo, visto que os discípulos fugiram!

O fracasso dos discípulos é demonstrado ao longo dos evangelhos, principalmente no exemplo de Pedro. Fatos que demonstram abertamente a condição de todo ser humano na comunidade de Jesus Cristo. Para o apóstolo Paulo a experiência do diaconato é marcada pela insígnia do serviço mesmo diante da precariedade e limitação humana. A configuração do serviço de Paulo é a que ele “morre” diariamente (1Co 15.30-32). Esse serviço está longe de ser um motivo de admiração, é uma experiência que ele descreve com toda sobriedade; pois morrer diário não acontece, p. ex., pela meditação, mas no fato de correr perigos permanentes por causa de Cristo.

A diaconia deve partir do princípio da própria fraqueza, nesse ínterim Tomás de Kempis [2] propõe: “Não julgues ter feito progresso algum, enquanto te não reconheças inferior a todos”. Ser diácono não exige diplomas. Os princípios da liderança servidora podem ser aprendidos e aplicados por aqueles que querem mudar e melhorar. O que vale é a motivação para mudar. Falar de mudança é fácil, mas para mudar mesmo é preciso iniciativa e coragem para sair da zona de conforto e entrar no desconhecido.[3]
A diaconia é movida pelo amor, e o amor devocinal é a disposição de uma pessoa para ser atenciosa com as necessidades, os interesses e o bem-estar de outra, independente de como se sinta. C. S. Lewis disse: Amar não significa se emocionar. É algo que sentimos em relação a nós mesmos e que devemos aprender a Ter em relação às outras pessoas. Significa que desejamos nosso próprio bem. Para Hunter amor é: O ato de se por a disposição dos outros, identificando e atendendo suas reais necessidades, sempre procurando o bem maior. Amar é fazer e não dizer, amar é ação. Nossas palavras perdem a força se não acompanhadas de atitudes. Ralph W. Emerson disse: o que você É grita tão alto em meus ouvidos que não posso ouvir o que está dizendo.

________________
[1] SCHWEISER, Eduard. in: NORSTOKE, K. A diaconia em perspectiva bíblica e histórica. São Leopoldo: Sinodal, 2003. p. 54.
[2] KEMPIS, Tomás. Imitação de Cristo. São Paulo: Martin Claret, 2005. p. 49.
[3] HUNTER, J. C. Como se tornar um líder servidor: os princípios de liderança de o monge e o executivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Deus submerso, soterrado e solidário.


O Brasil tem acompanhado o dilema de famílias que perderam tudo, de famílias que não existem mais, vítimas das fortes chuvas no Sul do país. O estado de Santa Catarina está debaixo da água. A cidade de Itajaí ficou com mais de 90% da cidade alagada. Muita água, muita sujeira, muitos danos, muitas perdas, muita dor e muito amor. Alguns têm se perguntado: Deus onde estás?

Os “amigos” de Jô, defensores da teologia da retribuição, estão dizendo que Deus está penalizando o estado por causa das festas de outubro, afinal, Ele já usou catástrofes naturais para penalizar antes. Ou seja, Deus está sentado no trono, exercendo seu papel de juiz, condenando os pecadores, condenando o estado por tamanha promiscuidade.

Não creio nisso, e o livro de Jó já deixa claro que essa teologia toma lá da cá, é caduca, mesmo porque, muitas pessoas tementes a Deus (assim como Jó) sofreram com a tragédia. Diante desse cenário arrasador, eu creio que Deus está submerso com os alagados, encoberto com os soterrados e atuante com os solidários.

Creio que o ecossistema está simplesmente respondendo a atuação degradante do ser humano nele. Em Adão pecamos, escolhemos a independência e isso acarretou sair do domínio de Deus e entrar no domínio do pecado. Nós criamos o mal (saber mais, clique aqui), nós estamos destruindo o mundo, nós, justos e injustos, evangélicos e católicos, todos estão sofrendo as conseqüências disso. No caso das chuvas, uns sofreram mais, outros menos, e Deus não é culpado por isso e não é injusto. Nós fizemos uma escolha e estamos pagando por ela e desde que a fizemos, o sofrimento faz parte de nossa existência.

Como já afirmei acima, creio que Deus sofre junto e de todo essa mal, ainda faz surgir o bem, a camaradagem e a solidariedade. Assim como em Cristo Deus foi simpático com o mundo, foi solidário, creio que nos pequenos cristos, nós, Ele tem manifestado seu carinho e cuidado. Essa calamidade despertou uma solidariedade há muito não vista no estado. Todas as cores, todos os credos, unidos em prol da mesma causa: ajudar o próximo.

Leonardo Boff diz que a vida é mortal: “desde que começamos a viver; começamos também a morrer.” . Até quem tem promessa morre, e pode sim, morrer soterrado, submerso, como muitos irmãos morreram. Crente morre em tragédias, seja ele criança, jovem, adulto ou ancião. Enquanto estivermos por essas bandas, estamos sujeito como qualquer um, a sofrer as mais terríveis barbáries.

Deus é nosso parceiro nessa caminhada em que estamos. Sofre conosco a cada temporal, a cada inundação, e assim como está com aqueles que sofrem, está com aqueles que ajudam. Os bons samaritanos. Deus poderia muito bem abandonar sua criação e larga-la a sua própria sorte, mas não, Ele escolheu estar junto em cada momento, bom ou ruim.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O Deus da Cabana - final


Estamos de volta e vamos a última parte da análise teológica, grosso modo, do livro que tem provocado os ânimos de muitos cristãos, o livro A Cabana, de William P. Yong. Livro que divide opiniões e pode levar a boas discussões, se ambos os lados não esquecerem que o livro é uma ficção, um romance e não uma confissão de fé ou um tratado teológico. Contudo, reconheço que o autor parece querer mais do que contar uma estória. Eugene Peterson arrisca dizer "Este livro tem o potencial de fazer com a nossa geração o que O Peregrino de John Bunyan fez para a sua. É muito bom."

Outro aspecto do Deus da Cabana que diverge do Deus ocidentalizado é a questão da institucionalização. O Deus pregado no Ocidente, de certa forma, é exposto como o criador da igreja, do cristianismo, Deus que gerou instituições para dar ordem na criação. O Deus da Cabana não gosta de instituições e rituais religiosos, não tem relação alguma com política, economia e religião. O Deus da Cabana afirma que essa tríade “são ferramentas terríveis que muitos usam para sustentar suas ilusões de segurança e controle” (p. 166). O Deus de Yong só tem a ver com relacionamentos. Relacionamento que liberta desse sistema. Jesus no livro A Cabana explica para Mack, que essas instituições são inevitáveis, mas não são o fim nem mesmo a solução da humanidade. Jesus diz o seguinte:
“Mack, o sistema do mundo é o que é. As instituições, as ideologias e todos os esforços vãos e inúteis da humanidade estão em toda a parte e é impossível deixar de interagir com tudo isso. Mas eu posso lhe dar liberdade para superar qualquer sistema de poder em que você se encontre [...] Você terá uma liberdade cada vez maior de estar dentro ou fora de todos os tipos de sistemas e de se mover livremente entre eles. Juntos, você e eu podemos estar dentro do sistema e não fazer parte dele ” (p. 168).
O Deus da Cabana tem seguidores em todos os sistemas e afirma que seu objetivo com a humanidade não é torná-la cristã, mas tornar cada ser humano seu filho, num relacionamento de amor. Então Mack faz a pergunta: quer dizer que todos os caminhos levam a você? Jesus responde: de jeito nenhum, a maioria dos caminhos não leva a lugar algum, mas eu busco vocês em todos esses caminhos.

O Deus da Cabana é três em um. A economia trinitária é apresentada no livro de forma bem humorada, deixando esse assunto complexo mais acessível àqueles que nunca leram algo sobre o tema. É interessante que a marca dos cravos não está somente em Jesus, mas nos três!

O Deus da Cabana não tem nada a ver com o mal, diz que esse é fruto da independência escolhida pela criação. O mundo não é um playground onde eu mantenho todos os meus filhos longe do mal. O mal é caos, mas não terá a palavra final. O Deus da Cabana é enfático em afirmar que o mal atinge a todos, os que o seguem e os que não. O sofrimento atinge a todos e isso é inevitável, contudo, o Deus da Cabana se propõem a compartilhar a carga. Onde está Deus em nosso sofrimento? Ao nosso lado. Ele diz que esse mal da significado ao amor! Por enquanto...

Acredito que esse livro mais ajunta do que espalha, e faço coro com Peterson!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O Deus da Cabana


Imagine receber um bilhete assinado por Deus, convidando-o a um encontro no local onde sua filha foi brutalmente assassinada. Mesmo desconfiado, você vai, afinal, se passaram quatros desde a tragédia e não tens nada a perder. Ao chegar no local, uma cabana velha, você se depara com uma negra enorme e sorridente, uma asiática e um homem, vestido de operário, que parece ser do Oriente Médio, um hebreu da casa de Judá para ser mais exato. Como o bilhete estava assinado em nome de Deus você pergunta: Qual de vocês três é Deus? E ouve os três simultaneamente: Eu! Essa experiência aconteceu com Mack, e nos é contada no romance literário A Cabana, de William P. Yong (Sextante, 2008).


Deus da Cabana nos é apresentado numa concepção diferente do Deus apresentado, grosso modo, em nossa teologia ocidental, a começar pelo gênero. A negra enorme que gosta de cozinhar (lembra a Oráculo de Matrix) chamada Elousia, exerce dentro da economia trinitária o papel de Pai, ou Papai como ela gosta de ser chamada, isso mesmo, elA gosta de ser chamada de Papai, parece meio confuso, mas não é. Temos o Deus mãe. Estamos tão acostumados em pensar Deus nas categorias masculinas que esquecemos que a própria Bíblia apresenta Deus como mãe (Mt 23). O Deus da Cabana é Pai e Mãe. Essa idéia de apresentar Deus como Mãe não é nova na teologia, mas com certeza nunca ganhou tanta popularidade como tem ganhado agora com o livro, que só nos EUA vendeu quase 2 bilhões de exemplares e aqui no Brasil não para nas prateleiras das livrarias, se bobear vai parar até no catálogo da Avon.

Pensar em Deus como Mãe pode ser um remédio para muitas pessoas, que dizem apresentarem problemas com Deus Pai, justamente por terem referenciais paternos horríveis. Acredito que pensamos Deus em categorias masculinas e paternas devido ao relacionamento do próprio Jesus com o Pai. Mas creio que a Bíblia permite eu pensar Deus em categoria femininas e maternas!

Por enquanto é isso, estarei fora do ar por duas semanas, e quando voltar analisarei outros aspectos teológicos do livro!

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