segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Tricotomia e Dicotomia, parte final


Breve análise semântica de termos antropológicos em Paulo.

Para compreendermos melhor essa questão sobre a tricotomia ou dicotomia, que foi nosso assunto anterior, vamos analisar brevemente alguns termos centrais na antropologia paulina. Por quê antropologia do apóstolo Paulo? Porque nos seus escritos a antropologia está mais elaborada e são em seus textos que os teóricos buscam fundamentação para suas doutrinas. Por isso, é de extrema importância essa análise semântica.

--> soma/corpo: à o corpo é um termo central na antropologia de Paulo. A dificuldade na compreensão desse termo grego é que não existe um correspondente hebraico direto. A palavra soma utilizada por Paulo e escritos do Novo Testamento, é a tentativa de se traduzir uma variedade de termos hebraicos, sem, contudo, ter uma equivalência com eles. No AT, o termo que possui envergadura teológica e no qual se embasa o pensamento paulino é o termo basar (carne), sendo que, a partir dele, a Septuaginta abra caminho aos termos carne e corpo. [1] Ao surgir a pergunta, como os hebreus expressam numa palavra o que os gregos expressam duas, John Robinson afirma que a resposta se encontra nos pressupostos presentes nos sistemas de pensamento de ambas as culturas. O pensamento grego é organizado sob antagonismos: matéria e forma, o um e o múltiplo, corpo e alma. Robinson diz que tem-se a noção de que o corpo é limite ou separação dos outros corpos ou objetos. Desta forma, “soma, em oposição a sarx, é o princípio de individuação, o que distingue e separa um homem de outrem”[2].


Já no pensamento hebraico, que não é dualista, enxerga-se a realidade como totalidade, onde “basar significa toda substância (realidade) vivente dos homens e dos animais organizada numa forma corporal”; “A idéia hebraica de personalidade [...] é a de um corpo animado, e não a de uma alma encarnada [...]. O ser humano não tem um corpo, ele é um corpo. Ele é carne-animada-por-uma-alma, sendo concebida a totalidade como uma unidade psico-física.” [3]
Com base nisso, pode-se então afirmar que para Paulo, soma tem um sentido de pessoa[4], onde a existência humana, mesmo na esfera do “espírito”, é uma existência corporal, somática. Logo, soma não é meramente um meio de expressão, mas a pessoa total.[5] Bultmann afirma que o ser humano não tem um soma, ele é um soma.[6]. Dunn acredita que o conceito de corpo em Paulo é maior do que o de corpo físico, por isso sugere soma como corporificação de toda pessoa.
“Nesse sentido soma é conceito relacional. Denota a pessoa corporificada em determinado ambiente. É o meio para viver no ambiente, para experimentá-lo [...] soma como corporificação significa mais que mero corpo: é o ‘eu’ corporificado, o meio com o qual ‘eu’ e o mundo agimos um sobre o outro.”[7]

Segundo Dunn, o que chama atenção é a distinção que Paulo faz entre o corpo atual e o corpo da ressurreição, onde na redenção não se tem uma fuga da experiência corporal, mas transformação numa espécie diferente de existência corporal, não mais sujeita a corrupção e a morte.[8] “Aliás, somente a partir da ressurreição do soma, torna-se compreensível, não só a reivindicação exclusiva do Senhor sobre o homem todo, como também a incompatibilidade de ser membro de Cristo e se unir à meretriz”.[9]


Para Paulo, soma, representa a humanidade criada como existência corporificada, onde por meio dessa corporificação a pessoa faz parte da criação e participa dela, tornando a dimensão social da vida humana possível.

--> sarx/carne: esse é outro termo fundamental na antropologia paulina. É um termo controverso, pois pode significar simplesmente a parte física do corpo até o sentido de “carne” como força hostil a Deus, como pecado. Essa gama de sentidos se dá pelo fato de que Paulo teve influências hebraicas e gregas.[10] Então, ora ele usa sarx com o sentido de corpo material, refletindo o termo hebraico basar (que representa o ser humano como um todo diferente de Deus), ora como “carne”, algo antagônico a Deus, refletindo a cultura helênica. Tanto que seu dualismo carne x espírito lembra Platão.[11] Teríamos que analisar texto por texto para sabermos quando Paulo emprega um sentido e quando emprega outro. Mas em síntese, podemos afirmar que sarx para Paulo representa o ser humano como criatura fraca, vulnerável, completamente dependente de Deus, bem como em oposição e em contradição com Deus e o Espírito de Deus.

Clique aqui para baixar um pequeno excurso sobre a relação soma e sarx e nous (inteligência) e kardia (coração). É fundamental leres esse texto para ter sua visão ampliada sobre a compreensão do ser humano em Paulo. Texto retirado do livro, A Teologia do apóstolo Paulo, de James Dunn.


--> psyche/alma: Paulo emprega esse termo no mesmo sentido do termo hebraico néfesh, ou seja, representa a vida toda da pessoa e não algo isolado do meu corpo como na compreensão grega. Psyche designa a pessoa a partir de determinado ponto de vista; o homem que pensa, trabalha e sente, ou a personalidade. Embora o corpóreo e o incorpóreo sejam distintos, a atividade dinâmica entre eles dá testemunho da unidade da pessoa. Para Paulo a psyche não é superior ao soma, apenas designa e salienta outro aspecto do ser.[12] Psyche denotando a pessoa é clara em muitas passagens (Rm 2.9; 13.1; 1Co 15.45; etc.), em outros lugares o sentido desloca-se para “vida” (Rm 11.3; Fl 2.30; etc) ou “vitalidade humana” (Cl 3.23; Ef. 6.6; etc.).[13]
à pneuma/ e/Espírito: Paulo não considera o pneuma uma centelha divina (o verdadeiro eu) encarcerada no físico. A pessoa que, como espírito, experimenta a comunhão com Deus é um ser corpóreo. O pneuma assim como a sarx precisam ser purificados (2Co 7.1). Nada escapa das garras do pecado, nem o pneuma, logo, não pode ser algo divino em nós. Podemos voltar ao texto de 1Ts 5.23 onde Paulo parece dividir a pessoa em três partes. Mas a intenção de Paulo é exatamente o contrário: “Que o Deus... vos santifique totalmente (holísticamente)...”, longe de dividir a pessoa, Paulo expressa a esperança de que os crentes, mediante a obra santificadora de Deus, sejam salvos da desintegração e preservados como seres completos (holos). Ele junta os três termos (somente aqui) para enfatizar, não para definir.[14]


Uma dificuldade que encontramos com esse termo, a semelhança de sarx, é que o número de usos de pneuma significando espírito humano em Paulo é incerto, pois em muitas passagens não é claro se a referência é ao Espírito divino ou ao humano. De qualquer modo, é significativo que número de referências ao Espírito Santo supera em muito o das referências ao espírito humano.

Em síntese, Dunn nos diz:


...podemos dizer que a pessoa humana, de acordo com Paulo, é um ser que funciona dentro de várias dimensões. Como seres corporificados, somos sociais, definidos em parte pela nossa necessidade e nossa capacidade de entrar em relação, não como opcional extra, mas como dimensão da nossa própria existência. Nossa carnalidade atesta nossa fragilidade e fraqueza como meros humanos, a inevitabilidade de nossa morte, nossa dependência da satisfação dos apetites e dos desejos, nossa vulnerabilidade à manipulação desse apetites e desejos. Ao mesmo tempo, como seres racionais, somos capazes de alçar às maiores alturas do pensamento reflexivo. E como seres que sentem somos capazes das mais profundas emoções e da mais intensa motivação. Somos seres vivos, animados pelo mistério da vida como um dom, e há uma dimensão do nosso ser pela qual somos diretamente tocados pela realidade mais profunda dentro e além do universo. Paulo não duvidaria em dizer, grato e reconhecido, com o salmista: “Eu te celebro por tão grande prodígio, eu me maravilho com as tuas maravilhas (Sl 139.14)”.[15]



[1] PUENTES REYES, Pedro A. O corpo como parâmetro antropológico na bioética. Tese de Doutorado. EST-INPG, Disponível em: Acesso em: 03 maio 2007. p. 72. Puentes ressalta que “a totalidade humana como materialidade, pó, corpo, não é em si fonte do pecado e do mal. [...] Em Paulo os aspectos negativos da existência humana se devem à sarx, a carne, e não ao soma, o corpo.” Ibid., p. 101.
[2] John A. T. Robinson apud.: Pedro A. O corpo como parâmetro antropológico na bioética. Tese de Doutorado. EST-INPG, Disponível em Acesso em: 03 maio 2007. p. 73.
[3] John A. T. Robinson. Loc. cit.
[4] Nunca de cadáver. Cf. DUNN, James. A teologia do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. p. 86.
[5] WIBBING, S. corpo in:COENEN, L. BROWN, C. Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 521.
[6] BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004. p. 248.
[7] DUNN, James. A teologia do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. p. 87.
[8] DUNN, James. op. cit., p. 92. Nesse sentido, entende-se o labor de Paulo em 1Co 15 afirmando a ressurreição do corpo. “A vida humana é inconcebível sem o corpo.” Cf. WIBBING, S. corpo in:COENEN, L. BROWN, C. Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 522.
[9] WIESE, Werner. A importância da corporalidade na escatologia paulina: uma análise de textos paradigmáticos das cartas autênticas de Paulo. Dissertação de Mestrado. Sem. Teo. Batista do Norte do Brasil. Recife, PE. 1996. (Não publicado). p. 133.
[10] Segundo Bultmann, Paulo se opõe a algumas das noções apreciadas pelos gnósticos, como a depreciação do corpo, mas vê uma fenda tão profunda no homem, uma tensão tão grande no seu interior... que se aproxima do dualismo gnóstico. Embora ele utilize primordialmente psychê no sentido veterotestamentário de “vida ou pessoa”, seu uso do termo em sentido depreciativo em contraste com pneuma evidencia a influencia gnóstica. REASONER, M. In: HAWTHORNE, G. F. (org.) Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova/ Paulus/ Loyola, 2008. p. 1021-1033.
[11] DUNN, James. A teologia do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. p. 93.
[12] REASONER, M. In: HAWTHORNE, G. F. (org.) Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova/ Paulus/ Loyola, 2008. p. 1021-1033.
[13] DUNN, James. A teologia do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. p. 109.
[14] REASONER, M. In: HAWTHORNE, G. F. (org.) Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova/ Paulus/ Loyola, 2008. p. 1021-1033.
[15] DUNN, James. A teologia do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. p. 112.

domingo, 20 de setembro de 2009

Dicotomia ou Tricotomia?

Como a Bíblia divide o ser humano? Ou melhor, ela o divide? Somos uma criatura dividida? Como entender corpo, alma e espírito?
Antes de procurarmos um posicionamento que se aproxime das escrituras, é importante definirmos os termos tricotomia e dicotomia.[1]

–> tricotomia: o termo, que significa uma “divisão em três partes” (gr. tricha, “em três partes”; temnein, “cortar”), é aplicado na teologia à divisão tríplice da natureza humana em corpo, alma e espírito. Esse conceito desenvolveu-se da divisão dupla feita por Platão [...]. Os escritores cristãos primitivos, influenciados por essa filosofia grega, acharam a confirmação da sua opinião em 1Ts 5.23: “os mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo, sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. Em uma versão de tricotomia, Deus habita o espírito (a pessoa interior) e o liberta da escravidão à alma (pessoa exterior) e ao corpo (a pessoa mais exterior) e faz a alma e o corpo subservientes ao espírito.
–> dicotomia: este termo, que significa uma divisão em duas partes (grego dicha, “em dois”; temnein, “cortar”), aplica-se na teologia àquele conceito de natureza humana que sustenta que o homem tem duas partes fundamentais no seu ser: o corpo e a alma/espírito, uma parte material e outra imaterial.[2] Por influência de Agostinho e dos reformadores protestantes, a dicotomia tornou-se a opinião estabelecida na teologia ocidental. J. G. Machen, por exemplo, afirmou ser inquestionável que a Bíblia “reconhece a presença de dois princípios ou substancias distintos no homem – o corpo e a alma”. Para ele, e à maioria dos exegetas, alma e espírito simbolizam a mesma realidade.

Problemas da interpretação tricotômica do ser humano

Essa interpretação da natureza humana, pode, facilmente, deixar despercebida a tremenda ênfase bíblica na integralidade e na unidade, onde mesmo no texto “prova” em Tessalonicenses, Paulo ora para que sejam santificados em tudo, e que [todo - ARC] seu espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros.
Geralmente, a escola teológica que defende a tricotomia, reduz o corpo a “carcaça”, “templo”, “receptáculo”, etc. da alma e espírito. Leiamos essas declarações:


Em resumo, a imagem de Deus, no homem, refere-se à imagem espiritual e moral, conforme a semelhança de Deus; e também à imagem natural, pelo fato de o homem ser uma pessoa, à semelhança de Deus, que também é Pessoa. Quanto ao corpo, foi feito por Deus para abrigar a parte espiritual do homem, formado por espírito e alma.
O corpo não é a imagem de Deus, porque é formado do “pó”. Porém, o Senhor soprou nele a nephesh _ a vida física da alma que possui a imagem e semelhança de Deus (Gn 2.7) Os impulsos físicos, pois, encontram-se sob o controle do espírito humano, a sua parte superior.
Os impulsos físicos, pois, encontram-se sob o controle do espírito humano, a sua parte superior.
[3]


Nessa perspectiva, a utilidade do corpo se resume a “abrigar” a parte espiritual do ser humano, de modo que, se estabelece a superioridade deste em relação àquele. De acordo com estas declarações, alma e espírito abrigam a imagem de Deus, portanto, a dimensão espiritual do ser humano é privilegiada e tem relação direta com Deus. Quanto ao corpo, este possui relação direta com a alma e espírito e só num segundo momento, há relação com Deus.

O corpo na concepção tricotômica está excluído daquilo que constitui a “imagem e semelhança” de Deus, tendo como função abrigar a parte espiritual do homem, isto é, o espírito e a alma. Aqui se percebe uma nítida desvalorização do corpo porque a dignidade do ser humano está no fato de ser semelhante a Deus. Sendo o corpo excluído do vínculo com esta semelhança de Deus, pois é privilégio apenas da alma/espírito, fica estabelecido a divisão do ser humano. Uma parte sua é imagem e semelhança de Deus enquanto outra não.

Tudo no ser humano é Imago Dei (falo mais sobre isso aqui), e o ser humano não tem corpo, ele é corpo (entenda mais clicando aqui). É preciso entender que os muitos termos que a Bíblia utiliza para se referir as partes específicas do ser humano, dizem respeito ao ser humano com um todo. Vemos muito isso em Paulo, pois ele frequentemente indica a pessoa toda por meio de termos que em outros contextos designam um aspecto ou uma dimensão da pessoa. Ao fazê-lo, ele não contradiz o outro emprego, nem confunde a parte com o todo. Ele vê a pessoa toda de um ponto de vista determinado, ou realça a contribuição de determinado aspecto para o funcionamento do todo.[4]

Em 1Ts 5.23 onde Paulo parece dividir a pessoa em três partes. Mas a intenção de Paulo é exatamente o contrário: “Que o Deus… vos santifique totalmente (holísticamente)…”, longe de dividir a pessoa, Paulo expressa a esperança de que os crentes, mediante a obra santificadora de Deus, sejam salvos da desintegração e preservados como seres completos (holos). Ele junta os três termos (somente aqui) para enfatizar, não para definir.[5]

Na próxima parte de nosso estudo, vamos entender que Paulo não valoriza o espírito em detrimento do corpo, o coração em detrimento da razão, Paulo enxerga o ser humano como um todo, tanto que a salvação do ser humano não acontecerá sem o corpo (1Co 15).

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[1] Utilizaremos as definições de WARD W. E. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 1984. Vol. 1 e 3. e de REASONER, M. In: HAWTHORNE, G. F. (org.) Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova/ Paulus/ Loyola, 2008. p. 1021-1033.[2] Existe também autores que rejeitam a dicotomia e defendem que o ser humano é retratado na Bíblia como uma totalidade, um todo, um ser unitário, que nesta vida presente não pode ser assim dividido. Esse pensamento, denominado Monismo, encontra amparo na antropologia do AT.[3] GILBERTO, Antonio. (Ed.) Teologia sistemática pentecostal. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p. 259 e 307.[4] REASONER, M. In: HAWTHORNE, G. F. (org.) Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova/ Paulus/ Loyola, 2008. p. 1021-1033.[5] REASONER, M. In: HAWTHORNE, G. F. (org.) Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova/ Paulus/ Loyola, 2008. p. 1021-1033.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Independência e Morte!

Hoje, 7 de setembro, simbolicamente comemora-se a independência do Brasil, quando D. Pedro bradou: “Independência ou morte”, a partir de então, nosso País começa a ter autonomia política em relação ao Reino de Portugal.

Pensando sobre essa data comemorativa, fui parar naquele jardim, O Jardim no Éden. Foi lá que aconteceu o maior processo emancipatório da história da humanidade, quando Adão e Eva gritaram as margens do “rio Eufrates”: Independência e Morte.
Segundo o txt de Gn 3.3 o casal estava ciente de seu futuro caso comecem o fruto: “mas Deus disse: ‘Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’” (NVI).

Adão e Eva escolheram caminhar sozinhos, terem conhecimento do bem e do mal. O autor bíblico utiliza a figura de uma árvore, visto essa figura simbolizar o conhecimento humano no Antigo Oriente. Tudo então fica claro: o autor quer nos dizer que um dia a humanidade decidiu caminhar sozinha, independente, seguindo sua própria sabedoria. O autor ainda faz questão de utilizar o termo hebraico Adam tanto para o relato da criação como o da queda, porque:

A origem do pecado está na humanidade, está em Adão (Rm 5.12). Adão e Eva são personagens coletivos, representam a humanidade em geral. Paulo diz: em Adão todos pecaram (1Co 15.22). Adão é personalidade corporativa! Não há como atribuir culpa somente a um ancestral, utilizando-o como “bode expiatório”. A queda repete-se em cada pessoa, pois todos pecam. Ninguém está em condições de começar da estaca zero, pois a humanidade traz consigo a marca do pecado.[1]

Emancipar-se de Deus foi a maior estupidez da humanidade. Nosso rastro histórico tem provado que nossa independência de Deus, que é sinônimo de dependência do pecado, só nos conduz ao caos e ao abismo. O ser humano autônomo é burro, pois ele foi programado para Deus.[2]

Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti
Agostinho em suas Confissões.
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[1]http://ocioteologico.blogspot.com/2008/08/origem-do-mal-rascunho-de-um-pensamento.html
[2] WESTERMANN, apud. WIESE, Werner. Ética fundamental: critérios para crer e agir. São Bento do Sul: União Cristã. 2008. p. 64.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Abbá Pai e a ignorância


[1] O movimento gospel dos últimos dez anos tem formatado uma geração que chora nos momentos de louvor, que chama de Deus de papai e que não lê mais a Bíblia. Afinal, para que me esforçar em entender uma coleção de livros se eu tenho essa “palavra” cantada? Tudo tão fácil, tão diluído, tão pobre. Mas não é sobre o descaso com a Bíblia que quero pensar com vocês, é sobre chamar de Deus de Abbá – papai querido, afinal, chamar Deus de papai é algo muito sério, pelo menos foi para Jesus.

Essa declaração sai muito fácil de nossos lábios, e acabamos esquecendo as dimensões dela. É no falar de Jesus Cristo que Deus é chamado de Abbá pela primeira vez, contudo, ele sabia o que e com quem estava falando. Jesus não estava seguindo uma tendência, pelo contrário, estava abrindo o caminho da oração e do louvor consciente.

Para entender as declarações de Jesus é importante conhecer o ambiente histórico-cultural de sua época. Para termos uma idéia, para os povos antigos, a palavra “pai” aplicada para a divindade evocava algo semelhante ao que a palavra mãe significa para nós. No Antigo Testamento, Deus é chamado de Pai apenas catorze vezes, mas cada uma delas é muito importante. Quando Deus é chamado de pai ele é honrado como criador[2], ou seja, tinha-se a consciência de que Ele é o Senhor que merece obediência e o Pai que é misericordioso.

Israel acreditava que a paternidade divina era exclusividade sua[3], contudo, é nos profetas que o conceito de Deus como Pai adquire todo o seu sentido no Antigo Testamento. Através dos profetas somos informados que a paternidade divina geralmente é correspondida com infidelidade da parte de Israel. É a ingratidão diante da misericórdia.[4]

O judaísmo palestinense mantém o mesmo significado do AT, é sóbrio em falar de Deus como Pai, onde seu amor e sua misericórdia são a palavra final, contudo, nos tempos de Jesus, não se tem registro de um indivíduo dirigindo-se a Deus como “meu Pai”, era sempre uma invocação coletiva: “Nosso Pai, Nosso Rei” .

Abbá” nas orações de Jesus.

Foi isso que Jesus fez, dirigiu-se a Deus como “meu Pai”[5], não só isso impressionou seus discípulos, o que impressionou mesmo foi o fato de Jesus utilizar a palavra aramaica Abbá (o acento está na última sílaba), pois esse termo fazia parte do balbucio infantil. Mas você pode estar se perguntado, o que isso tem de mais? Referir-se a Deus como Abbá para o judaísmo palestinense era desrespeitoso, e portanto, impensável invocar a Deus com um nome tão familiar.

Jesus abre o caminho para a intimidade com Deus. Foi algo único e inaudito “Jesus ter tomado essa iniciativa e falar a Deus como uma criança fala a seu pai, com simplicidade, intimidade e sem temor. Portanto, não há dúvida alguma de que a palavra Abbá, utilizada por Jesus para dirigir-se a Deus, revela o próprio fundamento de sua comunhão com ele.”[6]

As orações de Jesus influenciaram a comunidade cristã, tornando-se comum invocar a Deus como Abbá, Pai (Abbá, ho patér), e isso é ensinado pelo próprio Espírito Santo.[7] Portanto, somo autorizados a chamar Deus de papai: “As palavras de Jesus expressam simplesmente uma experiência cotidiana: só um pai e um filho é que se conhecem mutuamente”.[8]

Chamar Deus de Abbá é para quem vive o cotidiano com Ele, e não quem aprendeu o sucesso gospel do momento. Chamar Deus de Abbá é mais que friozinho na barriga e mãos levantadas, é compromisso e cruz!

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[1] Esse texto embasa-se, nas informações técnicas, na obra de JEREMIAS, Joachim. A mensagem central do Novo Testamento. São Paulo: Academia Cristã, 2005. p. 13-37.
[2] Dt 32.6; Ml 2.10.
[3] Dt. 14.1s.
[4] Ml 1.6; Jr 3.19s; Is 64.7.
[5] Todos os evangelhos são unânimes nessa afirmação. Somente no grito na cruz que Jesus não se serve do termo Abbá (Mc 15.34)
[6] JEREMIAS, Joachim. Op. Cit. p. 25.
[7] Gl 4.6.
[8] JEREMIAS, Joachim. Op. Cit. p. 31.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

analogia...














Este prédio que caiu na China, na fase final de construção me levou a duas rápidas reflexões:
1 - o movimento evangélico brasileiro, em grande parte, está sendo constrído sem fundamentos, uma hora vai cair, inteiro...

2 - minha própria vida precisa, volta e meia, de uma vistoria nos fundamentos. E dizem os entendidos, que para se fazer um bom fundamento, leva tempo. A construção, aquilo que aparece, pode se fazer muito rápido, comparado com os fundamentos...
como está faltando o Ócio, não posso desenvolver mais o tema, mas...., precisa?
PS - sei que essa notícia é velha, mas como dizem, notícia velha é nova para quem não leu...detalhes do acontecimento e fotos aqui!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Adeus Silas

Já existem muitos blogs denunciando o abuso da teologia da prosperidade, por isso, tento escrever sobre outras coisas, olhar para outros horizontes, mas hoje, quero escrever. Na verdade quero desabafar, compartilhar meu desânimo com o pastor Silas Malafaia.

Estou terminando de escrever meu livro, previamente intitulado Rascunhos da Alma: reflexões sobre espiritualidade cristã, e por isso fui dormir muito tarde. Eram 3h25 da manhã quando liguei a televisão. Programa do Silas com a presença do Dr.[1] Morris Cerullo. Eu já tinha visto o vídeo no youtube, mas não me causou o mesmo impacto que ver na televisão, altas horas da madrugada. Eu não acreditei.

Fiquei estarrecido com os argumentos desse homem que, talvez um dia, já foi um homem de Deus, mas agora tenho sérias dúvidas. Cerullo falou sobre uma unção financeira para sair da crise. Nunca ouvi falar de tal unção na Bíblia, mas deve estar lá, pois ele disse que ter ouvido isso de Deus. Disse mais: “que Ele derramaria uma unção financeira sobre seus filhos, que essa crise era para o mundo, não para os filhos de Deus”, e Cerullo complementa a “voz” divina: desde que, agora vem a contrapartida, que o fiel, o telespectador, desse voluntariamente uma pequena oferta de R$ 900,00. Caramba, o que é isso? Além de fazer uma exegese absurda do livro de Apocalipse, ele vem com uma explicação frouxa para justificar os novecentos reais.
Sem contar que ofertando, você leva inteiramente grátis, a Bíblia de Estudo Batalha Espiritual e Vitória Financeira e Deus até 01 de Jan cumprirá todas as promessas que te fez. Se você quiser ver as promessas de Deus se cumprir em sua vida, acho bom você ter R$ 900,00. E o Silas ali, concordando com tudo...

Só quero deixar registrado que o pastor Silas Malafaia, para mim, vai do reconhecimento para a repugnância. O que antes era para mim motivo de orgulho, agora é de desprezo. Não me identifico mais com sua pregação, sua postura de fé.

Fico pensando naquela pessoa abatida, cansada, que está atrás de uma palavra de conforto e ânimo. Minha oração é que ela passe longe da Band e da Record pela madrugada, pois, caso esteja sem dinheiro, ficará sem conforto.

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[1] Doutor em que será? Divindade?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Tá difícil...

Eu ainda não tenho acesso a internet em minha casa, pois, como passo a maior parte do meu dia no trabalho, não via a necessidade de ter esse gasto extra. Mas recentemente atendi ao telefone e era uma daquelas adoráveis operadoras de telemarketing. Ela se identificou como sendo da empresa Oi (que deveria se chamar Tchau!).

Com toda sua conversa de retenção de clientes ela me convenceu a fazer uma plano: “super em conta com super vantagens, o senhor terá isso; isso e aquilo, por apenas X reais, é uma super promoção para clientes super especiais”, aham, sei, ela deveria ser honesta e dizer o senhor terá isso; isso e aquilo somado a muito incômodo. Desde que aceitei o plano, recebo todos os dias, ou ligação da Oi, ou do UOL, ou da BR Turbo, e acreditem, cada hora recebo uma informação diferente: senhor o técnico vai na sua casa; senhor, quem disse que o técnico vai na sua casa?; senhor sua internet é de 1,5 mega; senhor não existe essa velocidade, sua internet é de 1 mega; senhor seu login é esse; senhor, seu login não é esse, tivemos problemas com seu cadastro; blá blá blá. Um verdadeiro descaso com o consumidor.
A partir do momento que a Oi me ligou oferecendo-me um serviço, seu papel deveria ser o de facilitar meu acesso a web. Sua função era me passar corretamente as informações tornando muito claro seus produtos e serviços. Não deveria permitir esse fast food de informações. Isso confunde e tu não sabes mais em quem acreditar. Tentar cancelar? É mais uma novela. Só estou esperando a próxima fatura.

Não sei por que, mas todo esse incômodo que estou tendo com a Oi, lembrou-me algumas igrejas que conheço, explico. Uma das funções da igreja, é apresentar uma “proposta” de vida as pessoas, é facilitar o acesso das pessoas a Deus, é proporcionar um ambiente onde as pessoas possam com suas diferenças adorar a Deus. Mas o que vejo é ao contrário, o acesso a Deus é obstruído por muito entulho dogmático. São tantas regras fúteis que o acesso a Deus se torna privilégio de “poucos”.

O que vejo são pessoas tentando se adaptar a esquemas eclesiásticos e não ao padrão do evangelho de Cristo. São pessoas que, por preguiça ou sei lá, não tem outra fonte de informação além daquilo ouvem nos púlpitos de suas igrejas ou assistem nos DVD`s desses conferencistas desmiolados (quanto mais asneira, barulho, mais vende). É uma pena. O resultado está aí para quem quiser ver. Essas igrejas são como a Oi/UOL, dão a informação pela metade, te cobram uma mensalidade e dificultam o acesso a Deus.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ser de Jesus


Por Fernando Albano[1]

O chamado de Jesus consiste primeiramente num chamado para sermos dele. Somos chamados acima de tudo para sermos de Jesus. De modo que antes de pensarmos em função devemos pensar em relação, antes de pensar em atividade, pensemos em afetividade, antes de pensarmos em funcionalidade, pensemos em comunicabilidade. Não somos chamados para simplesmente fazer, mas somos chamados para ser, ser de Jesus e de fato, somente depois de pertencermos a Jesus é que podemos resolver fazer alguma coisa. Aliás, ninguém faz nada de efetivo no Reino de Deus se não pertenceu antes a Jesus, se antes não foi embalado em seus braços.
Hoje vivemos num tempo em que se priorizam as atividades, de modo que as pessoas que são estimadas são aquelas cuja agenda está repleta de ativismo, ocupações de toda ordem a todo instante. _ “Você é o que faz” _ eis a máxima desse grupo. Mas quem acaba fazendo tudo a todo instante pode pensar que o sentido da vida está em sua funcionalidade pragmática, no progresso tecnológico, no ativismo desenfreado. Entretanto no Reino de Deus a coisa não funciona assim. Pois no Reino os relacionamentos pessoais são priorizados. Antes de sermos chamados para fazer somos chamados para sermos de Jesus Cristo. Mais importante do que estar envolvido numa série de ocupações que gastam a vida é estar diante de Jesus autor e sustentador de toda a vida.
Há no Evangelho uma bela ilustração daquilo que estamos afirmando aqui. Trata-se do relato da ocupação e preocupação de Marta que envolvida em suas ocupações se incomodou com a aparente ociosidade de Maria, que persistia em permanecer aos pés de Jesus, ouvindo-o atentamente. Marta trabalha e Maria permanece parada. Marta não suporta! Chama a atenção de Cristo, e, até lhe pede que censure Maria. Jesus por outro lado diz pra espanto dela que Maria havia escolhido a melhor parte, ou seja, preferiu estar com Jesus Cristo que fazer coisas para ele. De fato, há ocasiões que melhor que fazer é estar parado (a) em contemplação diante do Filho de Deus. Jesus nos chama para sermos dele para somente depois fazermos algo por Ele. Não inverta a ordem, não queira fazer para depois ser, seja de Jesus e depois farás!
Sendo assim, cabe-nos perguntar: E você já pertence a Jesus? Anda imerso em realizações, mas ainda não parou diante de Jesus Cristo? Pretende fazer tantas coisas, mas não está nas mãos de Jesus? Então deixa lhe dizer que realizações à parte da comunhão com Cristo são empreendimentos marcados pelo orgulho e pecado humano; obras sem relacionamento com Jesus é obra de natureza egoística, marcada pelos próprios interesses; atividade sem Jesus é construção de torres de babéis que inevitavelmente resultarão em confusão; realizações sem o senso de pertencimento a Jesus é obra de “madeira, palha e feno” que não subsistirão no dia do Juízo. Antes de pretender fazer, se permita ser de Jesus. Sua Palavra nos diz: “Se hoje ouvirdes a Sua voz não endureçais o coração”... “Eis que estou a porta e bato se alguém ouvir a voz e abrir a sua porta entrarei em sua e cearei com ele e ele comigo”. Escolha a melhor parte _ ouça seu chamado para ser Dele, Jesus.

[1] Fernando Albano é professor no Centro Evangélico de Educação e Cultura – CEEDUC. Contato: fernando@ceeduc.org

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Ainda sobre a marcha...

Alguns amigos e amigas participaram da marcha e foram unânimes em relação à organização do evento: muito bem organizado. Outro fator positivo é que maioria realmente marchou e poucos estavam na Arena quando a multidão chegou. A marcha aconteceu e cumpriu de certa forma seus objetivos, o povo declarou publicamente a sua fé, oraram e adoraram juntos, e de fato, isso não é irrelevante, e ainda que não seja o suficiente, pode ser um começo.

No portal do meu programa de rádio, alguém provavelmente ligado a organização da marcha deixou o seguinte recado:
"Queridos irmãos, gostaríamos de agradecer a todos que divulgaram e participaram da Marcha para Jesus em Joinville. Aos poucos, nos próximos dias, estaremos fazendo a cobertura completa [...] e também definindo o caminho para a continuidade dos propósitos: união, clamor, oração, solidariedade e ação (grifo meu)."

Se isso acontecer, colocarei junto a mão no arado direi que a marcha para Jesus foi relevante. Creio que as igrejas precisam mesmo se unir em prol da divulgação do evangelho e da transformação social. Ok, com a marcha, em partes divulgamos o evangelho, agora vamos para a transformação através do evangelho integral.

Acabei de assistir ao filme A Troca, de Clint Eastwod, com Angelina Jolie e John Malkovich, sei que Ricardo Gondim já comentou o filme, mas quero assinar em baixo. Malkovich interpreta o Reverendo Briegleb que não só denuncia os desvios do departamento de polícia da cidade, como age em prol da causa da Sra. Collins. Creio que agir de forma profética é agir como Briegleb. Para entender o que é ação profética é só ler os profetas na Bíblia, e verás palavras acompanhadas de ações. Ação profética é ação concreta numa realidade e não ficar “declarando” Joinville é do Senhor Jesus, esse tipo de coisa, realmente, é irrelevante e não muda nada.

Oxalá a comissão de pastores continuar se mobilizando e chegar a esse ponto, de unir as igrejas em prol de transformação social, não é tarefa fácil, mas, juntos somos mais (CN).

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