terça-feira, 30 de novembro de 2010
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Missão Integral
Já está claro a responsabilidade que pesa sobre aqueles que professam a fé em Jesus Cristo. O estudo da diaconia nos confronta com a realidade de que o Reino de Deus não deve ser somente proclamado, mas demonstrado. Por isso, nas próximas linhas, traçaremos um breve perfil da Missão Integral, uma prática que remonta a Jesus Cristo e à igreja do primeiro século, mas que por muito tempo foi esquecida ao longo da jornada cristã.
Sobre a Missão Integral
A expressão “missão integral” é relativamente nova, se comparada ao modelo de missão que ela representa. A expressão surge no seio da Fraternidade Teológica Latino-Americana há mais ou menos três décadas. Seu intuito era o de enxergar a missão da igreja dentro de um modelo mais bíblico, diferenciando-se assim, do modelo tradicional de missão instalado nos círculos evangélicos.
Não temos espaço para apresentarmos todo o histórico da Missão Integral, todos os movimento que a influenciaram e contribuíram para seu surgimento[1]. As influências vem de movimentos dos Estados Unidos, Europa e América Latina. Destacamos o Congresso de Lausanne, que aconteceu na Suíça em 1974. A partir desse congresso o mundo evangélico, de forma geral, começou a refletir sobre a missão integral da igreja[2] e os teólogos latino-americanos começaram a influenciar o debate missiológico além de suas fronteiras.[3]
Depois de Lausanne, ficou evidente duas maneiras de se entender a principal missão da igreja, os mais conservadores continuaram crendo que a evangelização é a principal tarefa da igreja e outro grupo “começou a trabalhar na direção de que não há prioridade na missão da igreja [...] tanto a evangelização como a ação social se completam, sem uma priorização entre elas”.[4]
A seguir, delinearemos algumas diferenças entre o modelo tradicional de missão e o modelo da missão integral.[5]
O Modelo Tradicional
No modelo tradicional a missão é concebida essencialmente como um cruzar fronteiras geográficas com o propósito de levar o evangelho do “mundo ocidental cristão” para os “campos missionários” do mundo não-cristão (os paises pagãos). Em outras palavras, falar de missão era falar de missão transcultural. O propósito da missão era “salvar almas” e “plantar igrejas”. O papel da igreja local ficou reduzido a prover pessoas para a missão e dar apoio espiritual e econômico.
Esse modelo foi instigado no afã de cumpri Mc 16.15 e é inegável que, apesar de suas deficiências, este conceito de missão que prevalece no movimento missionário moderno inspirou (e ainda segue inspirando) milhares de missionários transculturais a sair de suas terras para difundir as boas novas da salvação em Jesus Cristo mundo afora e assim escreveram muitas das mais belas páginas da história de Igreja.
Graças a essa compreensão tradicional de missão, hoje a Igreja é um movimento de alcance mundial, com congregações em praticamente em todas as nações da terra.
Padilla afirma que a identificação da missão da igreja com a missão transcultural, gerou pelo menos quatro dicotomias, que de certa forma afetam negativamente a igreja, dessas quatro, expomos duas:
1 - A dicotomia entre missionários, chamados por Deus a servi-lo, e cristãos comuns, que podiam desfrutar dos benefícios da salvação, mas estavam excluídos de participar do que Deus quer fazer no mundo. Atrevo-me a sugerir que a dicotomia entre “clérigos” (incluindo missionários e pastores) e “leigos” está na raiz do problema de muitos “domingueiros” que fazem parte do povo evangélico.[6]
2 - A dicotomia entre a vida e a missão da igreja. Se, para que a igreja fosse “missionária” bastasse enviar e apoiar alguns de seus membros para que se ocupassem da missão, algumas igrejas não teriam nenhum impacto significativo em sua vizinhança: a vida se desenvolve na situação local (em casa), mas a missão em outro lugar, preferencialmente no exterior (o campo missionário).
Fica evidente, a partir do exposto acima, que essa dicotomia se origina da redução da missão a um esforço missionário transcultural. Disso resulta a ideia de que missão consiste, tão somente, na tarefa de evangelização que um missionário enviado por alguma igreja local realiza num campo missionário em algum lugar do mundo, cumprindo assim a tarefa missionária de toda a igreja.
Um novo paradigma para a missão
A partir da missão integral, o fator geográfico torna-se secundário, a única fronteira a ser cruzada é o que é fé e o que não é e isso só depende do anúncio da pessoa e obra de Jesus Cristo, independendo do local onde esse anúncio é feito.[7] Cada igreja é convidada a participar da missão de Deus, uma missão que tem alcance local, regional e mundial.
A proposta da missão integral exige que a igreja comunique o evangelho mediante tudo o que é, faz e diz. Dessa forma, cada membro passa a servir aos interesses do reino de Deus.[8] E começa a entender que o objetivo da igreja não é crescimento numérico, abundância em bens materiais ou poder político, mas é ser um sinal histórico desse reino, que tem como emblema o amor e a justiça.
Cumprir esse propósito é tarefa de todos os membros da igreja, sem exceção, que recebem do Pai dons e ministérios para o exercício de seu sacerdócio, assim, testificam “do amor e da justiça revelados em Jesus Cristo, no poder do Espírito, em função da transformação da vida humana em todas as suas dimensões, tanto em âmbito pessoal como em âmbito comunitário.”[9]
Assim, as dicotomias do modelo tradicional são superadas, e todos se descobrem como participantes da obra redentora de Cristo, não importando o local, status social ou cargo eclesiástico.
Teologia da Missão Integral
A Teologia da missão integral, como o próprio nome sugere, pretende ser uma Teologia que se ocupa com a totalidade da realidade que precisa ser redimida. Tem como alvo o não apenas a salvação de almas individuais, mas, sobretudo, a salvação do emaranhado de situações que comprometem a vida e o seu bem-estar. Portanto, o foco não está unicamente no indivíduo, mas este em sua relação com seu contexto social, político, econômico, entre outros. De acordo com Sanches:
A realidade humana é abrangente e integra vários aspectos que se interrelacionam, e não podem ser tratados parcialmente. [...] É nessa realidade humana integral e complexa que a Igreja é chamada a missionar, portanto, não há outra forma de realizar a missão no mundo, senão na perspectiva da integralidade.[10]
É a partir desses pressupostos que nasceu a Teologia da Missão Integral. Ela é resultado de sério e consciencioso trabalho de teólogos latino-americanos, envolvidos diretamente com uma visão mais abrangente de missão e Reino de Deus.
Todo o Evangelho
“O evangelho todo para o homem todo, para todos povos”. Este é o lema que sintetiza a Teologia da Missão Integral. Sua base teológica encontra-se exposto, entre outros, no conhecido “Pacto de Lausanne”. Entende que a evangelização consiste na divulgação das boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor ele agora oferece o perdão dos pecados a todos os que se arrependem e crêem. Ressalta ainda, que Deus é o Criador e juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar a sua vontade pela justiça e reconciliação em toda a sociedade humana, e pela salvação dos homens de todo o tipo de opressão. Isso significa que a fé cristã está inevitavelmente ligada às questões políticas e sociais, que outrora, tantas vezes foram negligenciadas. Ed René Kivitz resume a Teologia da Missão Integral do seguinte modo:
O Reino de Deus é o domínio soberano de Deus, que entrou na história na pessoa de Jesus, com a finalidade de sobrepujar o mal, libertar o homem de seu poder e possibilitar sua participação nas bênçãos inerentes ao governo de Deus sobre todo o universo desde agora e para toda a eternidade.
A soteriologia da missão integral é o domínio de Deus, de direito e de fato, sobre todo o universo criado, através daqueles restaurados à imagem de Jesus Cristo, o primogênito dentre muitos irmãos. A salvação é o Reino de Deus em plenitude, onde a vontade de Deus é realizada - concretizada em perfeição. A redenção pessoal/individual é a apenas uma parcela do que o Novo Testamento chama salvação: o novo céu e a nova terra.
A eclesiologia da missão integral é o novo homem coletivo. Deus não está salvando pessoas, está restaurando a raça humana. Estar em Cristo é não apenas ser nova criatura, mas também e principalmente ser nova humanidade - não mais descendência de Adão, mas de Cristo, o novo homem - homem novo. [...] No Cristianismo, a salvação é pessoal, a peregrinação espiritual é comunitária, e nada, absolutamente nada, é individual.
A missiologia da missão integral é a sinalização histórica do Reino de Deus, que será consumado na eternidade. A igreja, o corpo de Cristo, é o instrumento prioritário através do qual Cristo, o cabeça, exerce seu domínio sobre todas as coisas, no céu, na terra e debaixo da terra, não apenas neste século, mas também no vindouro. [...] A missão integral implica a ação para que Cristo seja Senhor sobre tudo, todos, em todas as dimensões da existência humana.
A antropologia da missão integral é a unidade indivisível do "pó da terra/fôlego da vida", as dimensões física e espiritual do ser humano. "Corpo sem alma é defunto; alma sem corpo é fantasma"; "Cristo veio não só a alma do mal salvar, também o corpo ressuscitar". A ação missiológica e pastoral da igreja afeta a pessoa humana em todas as suas dimensões: bio-psíco-espiritual-social - a pessoa inteira em seu contexto - o homem e suas circunstâncias.[11]
O kerigma, evangelização, na missão integral é a proclamação de que Jesus Cristo é o Senhor, seguida da convocação ao arrependimento e à fé, para acesso ao Reino de Deus. [...].
KIVITZ, E. R. Disponível em < http://www.ibab.com.br/artigos.php?id=43> Acesso em: 15 nov. 2010.
Antes de terminarmos esse pequeno esboço da teologia da Missão Integral, é importante ressaltar que ela não é a soma de evangelismo pessoal + assistência social (esta geralmente utilizada como isca evangelística) mas é uma convocação à rendição ao senhorio de Jesus Cristo, tornando-se um súdito desse reino cheio de amor e de justiça.[12]
Ouça o podcast sobre o assunto, CLIQUE AQUI.
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[1] Para aprofundamento do tema sugerimos a leitura do livro de Luiz Longuini Neto, O Novo Rosto da Missão, editado pela Ultimato em 2002.
[2] BARRO, Antônio Carlos. In: MISSÃO integral: proclamar o reino de Deus, vivendo o evangelho de Cristo. Ultimato: Viçosa, 2004. p. 72-89. No Brasil, o congresso de Lausanne influenciou os dois congressos brasileiros de evangelização, o primeiro em 1983 e o segundo em 2003.
[3] Disponível em Acesso em: 17 de nov. 2010.
[4] BARRO, Antônio Carlos. In: MISSÃO integral: proclamar o reino de Deus, vivendo o evangelho de Cristo. Ultimato: Viçosa, 2004. p. 72-89.
[5] Seguiremos a exposição de PADILLA, C. René. O que é missão integral? Viçosa: Ultimato, 2009. p. 14ss.
[6] Recomendamos a leitura da obra Os outros seis dias de R. Paul Stevens, da editora Ultimato. Nela o autor expõe os perigos dessa dicotomia entre cleros e leigos e retoma o sacerdócio geral de todos os crentes a partir das escrituras.
[7] Aquino afirma: “Parece-me que o conceito de missão está fortemente ligado ao texto de Mc 16.15, onde a ênfase recai no IDE! É inegável que esse versículo inflamou corações a percorrerem o mundo anunciando o evangelho, contudo, amarrou missão com deslocamento geográfico, e isso, de certa forma, pode ser um problema. Ao fazermos uma tradução literal a partir do texto grego de Mc 16.15 descobrimos algo importante: “E disse a eles: Indo para o mundo inteiro proclamai o evangelho...”, o imperativo do versículo não é o ir, mas o proclamar. Se a ênfase é o proclamar, logo, não preciso me deslocar geograficamente, mas, onde estiver, posso viver minha identidade como igreja de Deus.” AQUINO, Rodrigo de. Rascunhos da Alma: reflexões sobre espiritualidade cristã. Joinville: Refidim, 2009. p. 67.
[8] KIVITZ, E. R. In: MISSÃO integral: proclamar o reino de Deus, vivendo o evangelho de Cristo. Ultimato: Viçosa, 2004. p. 64-65.
[9] PADILLA, C. René. O que é missão integral? Viçosa: Ultimato, 2009. p. 18-19.
[10] SANCHES, Regina Fernandes. A teologia da missão integral: história e método da teologia evangélica latino-americana. São Paulo: Reflexão, 2009. p. 147.
[11] Em outro texto, Kivitz diz: A missão da igreja, portanto, não consiste apenas do testemunho de uma mensagem verbal, convocando espíritos humanos a que recebam perdão para os pecados e se acomodem na esperança do céu pós morte. A missão da igreja consiste em levar o evangelho todo para o homem todo, convocando pessoas (unidade corpo-espírito) para que se integrem e participem do reino de Deus desde já, rendendo todas as áreas e dimensões da existência humana à autoridade de Jesus. KIVITZ, E. R. Disponível em Acesso em: 15 nov. 2010
[12] KIVITZ, E. R. In: MISSÃO integral: proclamar o reino de Deus, vivendo o evangelho de Cristo. Ultimato: Viçosa, 2004. p. 64-65.
Os editores
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Salvação: Expiação, Liberdade e Cura
Por Fernando Albano
“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes” (Rm 5.1-2ª)
Aceite ser AceiA Bíblia ensina que Deus se tornou homem. Isso significa que não estamos sós. Alguém se ocupa de nós e vence o mal e pecado, reparando o dano causado ao relacionamento entre a humanidade e Deus. O ser humano é salvo de suas cadeias e curado daquilo que o aflige e o afasta de Deus. Portanto, a morte e a ressurreição de Jesus dá ao cristão uma nova vida, isto é, uma vida eterna.
a. – Expiação
Expiar significa cobrir o pecado. Deste modo, remover o obstáculo à comunhão com Deus. Foi exatamente isto que Jesus realizou na cruz. O cristianismo ensina que o Jesus inocente assumiu para si a culpa de toda a humanidade e sofreu a punição que caberia ao ser humano. Ele padece e morre no lugar do pecador. A teologia cristã denomina isso de sofrimento vicário, isto é, substitutivo. Por meio dele, Deus se reconcilia com a humanidade, e a comunhã do ser humano com Deus é restabelecido.
O apóstolo Paulo destaca que a expiação de Jesus é uma dádiva para a humanidade, embora esta não o merecesse (Ef 2.8-9). Aqui temos o conceito de graça, tão caro ao cristianismo. Deus nos aceita mediante a fé em Jesus, apesar de sermos inaceitáveis. Assim, nossa obra é simplesmente aceitar ser aceito. Geralmente as pessoas têm senso de reivindicação. Isto ocorre por pensarem que possuem méritos. Assim, onde houver méritos haverá reivindicação. Contudo, na salvação de Deus isto não se aplica, pois somos pecadores diante de Deus e, portanto, a base de nossa relação com Ele encontra-se na Sua graça. Definitivamente não há lugar para o mérito humano na salvação. Portanto, só os que são capazes de se deixar presentear. Somente estes são justificados por Deus porque aceitam ser aceitos, se permitem ser alvo do amor e do perdão de Deus.
b. – Salvação
A palavra utilizada no Novo Testamento para “salvo” é um verbo grego que significa “redimido”, “preservado”, “libertação” ou “curado”.
Uma ideia fundamental da teologia cristã é que o indivíduo não pode salvar a si mesmo. A salvação é concedida gratuitamente a pessoa se ela acreditar em Cristo e em sua expiação na cruz (Ef 2.8-9).
É somente por meio da fé em Jesus que o indivíduo pode ser salvo. Convém ressaltarmos que, é “por meio da fé” e não pela fé que somos salvos. Somos salvos pela graça de Deus. A fé serve de canal dessa graça salvadora. Caso contrário, a fé poderia ser compreendida como uma obra humana e, portanto, negaria o próprio conceito de graça conforme ensinada nas Escrituras.
A fé que salva não é assentimento intelectual a respeito de um conjunto de doutrinas, não é mera decisão da vontade em relação à Cristo e nem questão de pura emoção. Mas é aceitar ser aceito por Deus apesar de ser inaceitável. É confiança numa pessoa _ Cristo. É ser livre para viver a liberdade e ser unido a Cristo, a fim de viver em Deus e Deus nele, enfim, receber o perdão e passar a viver em comunhão com Deus, consigo e com o próximo.
c. - Salvação _ do quê?
Do que o ser humano precisa ser salvo? A Bíblia ensina que a salvação significa basicamente se libertar do poder do pecado que domina as pessoas. Para Aulén pecado é tudo o que interrompe e quebra a comunhão com Deus. Sendo a essência do pecado a descrença. Grudem afirma que: “pecado é deixar de se conformar à lei moral de Deus, seja em ato, seja em atitude, seja de natureza”. Elienai Cabral escreveu: “O pecado é, de fato, uma ativa oposição a Deus, uma transgressão das suas leis, que o homem, por escolha própria (livre), resolveu cometer conforme relata a Bíblia”.
A angústia, vazio e ansiedade, que facilmente pode ser constatado em nossos dias, frequentemente são sintomas de indivíduos e sociedades dominadas pelo pecado. Precisamos urgente de salvação. Mas graças a Deus que: “[...] onde abundou o pecado, superabundou a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 5.20-21). Logo, a última palavra não precisa ser necessariamente do pecado, pois há graça, perdão e cura por intermédio de Jesus Cristo, nosso Senhor.
d. – Salvação _ para quê?
Outra palavra para “salvação” é liberdade. “Se, pois, o Filho vos libertar, sereis, realmente, livres”, disse Jesus (Jo 8.36). “É para a liberdade que Cristo nos libertou”, escreve Paulo aos Gálatas (Gl 5.1; cf. Rm 8.2).
É um conceito bíblico que a vida nesta terra tem valor intrínseco. Não somos salvos para fugir deste mundo, pelo contrário somos salvos para poder usufruir dele de modo legítimo, recebendo todas as coisas como dádivas do amor de Deus. Isto posto, a morte é vista como algo negativo. Algo que ofende a vida, por isso Paulo disse que a morte é o “último inimigo”. E é a vitória de Jesus sobre a morte, com sua ressurreição, que fundamenta a esperança na vida eterna.
A Esperança Cristã
Os ensinamentos do Evangelho deixam claro que o Reino de Deus e sua salvação não consistem unicamente no livramento individual, como comumente se pensa. A esperança cristã tem um aspecto comunitário. Em outras palavras, seu objetivo é a criação de um novo mundo, uma era de paz, justiça e fraternidade universais. De fato, a esperança cristã abrange ainda uma dimensão cósmica: haverá “um novo céu e uma nova terra”. Para os salvos, não haverá apenas o céu, mas todas as coisas e o próprio Deus será tudo em todos.
Mas infelizmente, nem todos serão salvos. Não porque Deus não queira salvar toda a humanidade, mas porque muitos permanecerão em pecado, recusando-se a confiar no Filho de Deus. Na realidade podemos afirmar que o julgamento se baseará na resposta do coração humano ao Cristo crucificado (Lc 23.39-43). O ser humano não pode merecer a salvação por causa de suas boas ações. Assim, somente pode ser salvo gratuitamente por Jesus. “Em verdade, em verdade, vos digo: quem escuta a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vem o julgamento, mas passou da morte à vida” (Jo 5.24).
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Profundidade em poucas palavras
“Os justos carregam sua natureza carnal, os injustos são carregados por ela.” (Agostinho)
“Sei porque a igreja tem pouca influência no mundo atualmente: é porque o mundo tem muita influência na igreja.” (C.H. Spurgeon)
“Ser um cristão sem orar é tão possível quanto viver sem respirar.” (Lutero)
“Deus promete pra você vitória, não ausência de lutas. Deus promete pra você chegada certa, não caminhada fácil.“ (Hernandes Dias Lopes)
“É possível ser muito ativo no serviço de Cristo e ainda esquecer de amá-lo.” (P.T. Forsyth)
“O Espírito não é dado para tornar desnecessário o estudo da Bíblia, mas para torná-lo eficiente.” (J.I. Packer)
“Nunca me canso de dizer que aquilo de que a Igreja mais necessita não é organizar campanhas de evangelização, a fim de atrair as pessoas que ainda estão do lado de fora, mas começar, ela mesma, a viver a vida cristã.” (Martyn Lloyd-Jones)
“Sei porque a igreja tem pouca influência no mundo atualmente: é porque o mundo tem muita influência na igreja.” (C.H. Spurgeon)
“Ser um cristão sem orar é tão possível quanto viver sem respirar.” (Lutero)
“Deus promete pra você vitória, não ausência de lutas. Deus promete pra você chegada certa, não caminhada fácil.“ (Hernandes Dias Lopes)
“É possível ser muito ativo no serviço de Cristo e ainda esquecer de amá-lo.” (P.T. Forsyth)
“O Espírito não é dado para tornar desnecessário o estudo da Bíblia, mas para torná-lo eficiente.” (J.I. Packer)
“Nunca me canso de dizer que aquilo de que a Igreja mais necessita não é organizar campanhas de evangelização, a fim de atrair as pessoas que ainda estão do lado de fora, mas começar, ela mesma, a viver a vida cristã.” (Martyn Lloyd-Jones)
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Companheiro de Viagem
Hoje, dia 29 de outubro, comemora-se o dia nacional do livro. Comemoração que nasceu em 1810, quando a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro foi criada. A idéia em dar esse dia “ao livro” nasce no afã de despertar o desejo pela leitura nas pessoas.
Creio ser de grande valia esse incentivo, pois segundo o caderno Anexo do jornal AN , uma pesquisa feita pelo Instituto Pró-livro mostrou que 77% dos cinco mil entrevistados preferem ver TV no tempo livre, sendo que o livro é a quinta opção para os momentos de ócio. Uma pena!
Aqueles que estão no poder, são beneficiados com a “burrice” generalizada, são gratos àqueles que sentam na frente da TV se deixam alienar. Não estou generalizando, até existe coisa boa na TV, mas dá para contar nos dedos da mão (do Adoni-Bezeque Jz 1:4-7) e confesso, já assisti a programas que me levaram a concordar com os “ermãos” mais tradicionais, quando afirmam que a TV é do diabo.
Na igreja isso também acontece, pois quanto mais inculta a membresia, mais poder a liderança tem, pois informação é poder! Tanto que quem critica ou simplesmente tem outra opinião, é chamado de crente frio, eu sei bem o que é isso... mas isso são outros quinhentos...
Eu escrevi o livro Rascunhos da Alma por acreditar no poder que um livro na transformação do indivíduo, como disse o poeta: “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.” Mário Quintana
Vamos ler, vamos pensar. Vamos aumentar nosso vocabulário, aumentar nosso poder de imaginação e criatividade. Vamos tornar um livro nosso companheiro de viagem, e eu falo não só da viagem do trabalho/escola/academia para casa, mas da viagem da vida.
Termino esse texto com a carta de John Wesley a John Trembath em 17/08/1760.
“O que tem prejudicado a sua vida no passado e lamento dizer, até hoje, é a sua negligência quanto à leitura. Negligência tal que por sua vez chega a prejudicar até o próprio desejo de ler. Dificilmente me recordo de um pregador que leia tão pouco. Eis a razão porque seu talento em pregar não aumenta. Você continua pregando como pregava há sete anos; com emoção, porém sem profundidade. Falta variedade e conteúdo.
A leitura poderá preencher estas lacunas com meditação e oração diária. Você prejudica a si mesmo em omitir tal prática. Desprezo à leitura impede alguém de ser um pregador maduro. Até para ser um cristão íntegro é mister a leitura adequada. Oxalá que começasse logo!
Separe uma parte do dia para este exercício. Assim adquirirá o sabor por aquilo que faltava; o que parece monótono no início se tornará com o tempo um prazer. Com ou sem disposição leia e ore diariamente. É para a sua própria vida; não existe outro caminho.
Faltando isso será para sempre um pregador superficial.”
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
MEU DEUS, POR QUÊ?
Por Fernando Albano*
“Deus meu, Deus meu por que me abandonaste?”. Estas palavras foram proferidas por Jesus Cristo na cruz. Brado de dor e desamparo que num primeiro momento obteve o silêncio como resposta. Essa pergunta que Jesus fez ainda é feita regularmente em nossos dias. Certamente muitos se debatem com esta questão: a dor que não recebe explicação. Sentimentos de abandono que se instalam no coração e parecem vir marcados pela vocação da perpetuidade. São sentimentos teimosos! Recusam-se a ir embora, querem ser nossos companheiros!
O abandono é uma experiência de dor que todos nós em algum momento da vida já experimentamos na pele. Mas esta dor atinge níveis elevadíssimos quanto nos sentimos desamparado pelo próprio Deus. Assim, quem nunca perguntou a Deus: “Por quê?”. Quem nunca se sentiu abandonado por Deus? Até Jesus sentiu-se assim quando a morte aproximava-se.
Jesus amava a vida e como tal demonstrou pavor diante da morte. Quem ama viver não pode sentir-se bem quando a morte se avizinha. Mas o relato do Evangelho não termina deste modo, a saber com a apresentação de um Cristo abandonado em dor. Antes, ele ora corajosamente e diz em oração: “Em tuas mãos entrego o meu espírito”. Esta é a atitude apropriada no dia mau, da dor e tribulação: entregar, sim entregar nas mãos de Deus o destino de nossa vida. É nas mãos de Deus que nossa existência deve estar, mesmo que não vejamos num primeiro momento qualquer mudança em nossa situação de crise.
Jesus assim faz, entrega a sua vida e finalmente morre. Deste modo, aparentemente jaz derrotado na cruz, sucumbido ante os poderes da morte e do mal. Mas a história de Jesus Cristo não termina desse modo trágico. Sim, porque há ressurreição, há vida. Enfim, o abandono dá lugar ao acolhimento, a derrota dá lugar à vitória. Jesus Cristo ressuscita! Triunfa sobre a morte e todos os poderes do mal e, finalmente assenta-se junto à direita do Pai. Diante disto você pode indagar: “Ok, tudo bem, isso é bonito, mas e minha vida?! Minhas lutas e tribulações?” Calma! Hoje, você se sente abandonado porque está vivendo a sexta feira da paixão existencial, ou seja, momento de abandono e silêncio divino, porém, o dia da páscoa virá, haverá ressurreição, sua vida mudará! Ainda mais: não desista de clamar, mesmo que tenha obtido como resposta o silêncio divino, pois como disse Paulo, “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. No final vai dar certo! Não morrerás! Haverá vida e vitória. Portanto, entrega sua vida e confia em Deus, mesmo em meio ao silêncio divino e sob a ameaça da morte; se você assim fizer e puder dizer a Deus confiantemente, “Deus meu” e aquietar em Sua mão, certamente você será surpreendido pelo poder da ressurreição que a todos vivifica e abençoa. Repito: Não é o fim! Pois Deus não o abandonou e garante a possibilidade de um novo começo! Creia e experimente a vida que triunfa sobre a morte e mal.
* Fernando Albano é Presbítero da Igreja Evangélica Assembléia de Deus em Joinville/SC. Graduado em Ciência da Religião: Licenciatura Plena em Ensino Religioso – UNIVILLE. Mestre em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST). Professor no Centro Evangélico de Educação e Cultura - CEEDUC e Professor de Ensino Religioso na Escola Municipal Paul Harris em Joinville/SC.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Somente Cristo
Prezados leitores, mais uma vez peço perdão pela demora em atualizar o blog, mas a vida de casado e em fase de TCC, o ócio está escasso, e pra piorar, quando sobra um tempinho, as muitas séries da TV americana me roubam à atenção.
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Nesse mês, o podcast dos formulados não poderia trabalhar outro tema se não o da Reforma Protestante. Depois de fazermos uma pequena introdução, começamos a abordar os pilares da teologia de Lutero: Somente Cristo; Somente a Fé; Somente a Escritura e Somente a Graça. Semana passada abordamos o primeiro pilar, e apesar de óbvio, foi muito proveitoso rever alguns pontos, que compartilho em breves palavras a seguir.
Lutero não planejou uma revolução, como professor de exegese bíblica ele só queria entender a salvação da humanidade. A pergunta: como o ser humano é salvo, o levou até o Cristo das Escrituras, diferente daquele “oferecido” pela igreja de então. O acesso a Cristo na época de Lutero era extremamente “burocratizado” sendo os ritos/sacramentos central na piedade dos fiéis.
Com a declaração Somente Cristo, Lutero quis colocar Cristo no centro da existência humana. O ser humano na busca pelo Pai só o encontra em Cristo. Todas as perguntas acera de salvação e relacionamento entre o divino e o humano se resolvem no Cristo.
Em Jesus Cristo, mediante a sua pessoa, atividade e história, Deus tem aberto seu coração à nós. Assim, Ele nos deu a certeza do que sente a nosso respeito e sua intenção para conosco. CRISTO É O ESPELHO DO CORAÇÃO PATERNO DE DEUS. Podemos dizer sem titubear: Deus é por nós, Deus quer nos Salvar.
Tudo parece óbvio para nós hoje em dia, mas não era para aquela época, em que a salvação estava ancorada nas tradições e não na Escritura/Cristo. As pessoas viviam a tensão céu/inferno e toda piedade era movida pelo medo de ir para o inferno e não por amor e devoção a Deus. Fazendo essa observação percebo que muitas pessoas ainda vivem nesse mesmo esquema.
No meio pentecostal se pergunta muito pela certeza da salvação. E é incrível como muitos não respondem de pronto. Depois de conversar com muitos irmãos e irmãs, cheguei a conclusão que essa incerteza se dá pelo fato da ausência da centralidade de Cristo. Quando alguém titubeia diante dessa pergunta, é porque a concepção de salvação ainda é meritocrática. Fica claro que não é Cristo que está no centro, mas a piedade.
Alguns colocam a piedade no centro (sou salvo porque oro, jejuo, blá blá), outros o ministério (sou salvo porque sou um obreiro/a aprovado), enfim, existem muitos amuletos que tiram Cristo do centro. Por isso, se faz necessário colocarmos CRISTO no centro e sempre de novo reconhecermos que Somente Cristo Salva e que nossa justiça não passa de absorvente (Is 64.6).
Nesta sexta, 15/10/2010, abordaremos o segundo pilar, Somente a Fé, ouça ao vivo nosso podcast na rádio 107,5FM (quem está fora de Joinville pode acessar www.1075fm.com.br) as 23h. Esse podcast estará disponível para download no portal www.formulados.com.br.
Para elaboração desse texto usei o livro A Teologia de Martinho Lutero, de Paul Althaus, editora da Ulbra, 2008.
SOMENTE CRISTO (Solus Christus)
Lutero resgata o ensino bíblico da centralidade de Cristo, como único fundamento da nossa fé e da nossa salvação. Somente Cristo salva, somente Cristo perdoa, somente Cristo nos conduz à comunhão com Deus. O ser humano não tem forças, nem recursos para salvar a si mesmo, por meio de suas obras ou méritos pessoais. Por si só o ser humano é escravo da corrupção e da perdição. Jesus Cristo, por causa da sua obra realizada na cruz é o único que pode resgatar o ser humano do mal e do pecado no qual se encontra. Lutero coloca no centro da fé somente o Cristo e a cruz e tira do ser humano todo poder ou pretensão de fazer a salvação passar por imagens, santos, promessas ou obras meritórias.
Quanto a isso o reformador nada inventou. Apenas chamou atenção para aquilo que sempre esteve registrado nas Sagradas Escrituras. Quero lembrar apenas uma passagem que aponta para esta centralidade de Cristo como fundamento da nossa fé. “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” (Atos 4.12).
Disponível em http://www.luteranos.com.br/articles/9353/1/Os-pilares-da-Reforma/1.html
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Meu nome não é Lúcifer.
Satanás vive dando entrevistas nas igrejas[1] por aí. Penso que uma das coisas que ele deveria falar é: Parem de me chamar de Lúcifer! Se bem que para o “peludo”[2], quanto mais ignorante o povo for a seu respeito, melhor, como bem frisa CS Lewis em seu magnífico livro[3] Cartas de um diabo ao seu aprendiz (Martins Fontes).
Na mente evangélica é automático associar o nome Lúcifer à Satanás, isso é aceito como verdade inquestionável. Porém, nem sempre foi assim na história da igreja. Até o século IV um bispo cristão ainda podia chamar-se São Lúcifer e seus seguidores de luciferianos. Somente quando alguns Pais da Igreja começaram a interpretar Is 14.12 como sendo o relato da queda de Satanás, que essa associação aconteceu e Lúcifer passou a ser nome do diabo.[4]
A palavra lúcifer foi introduzida no texto de Is 14.12, por ser a tradução latina da palavra hebraica hêlel, que significa “portador da luz” ou “estrela da manhã”. Era o nome latino para o planeta Vênus, o objeto mais brilhante no céu depois do sol e da lua, que algumas vezes aparece de noite, outras vezes pela manhã.[5]
O texto de Is 14 em seu contexto, em nenhum momento sugere a queda de um ser angelical. É explicitamente um oráculo contra o rei da Babilônia (v. 4), um ser humano que queria ser igual a Deus.[6] O título dado ao rei, Estrela d`alva, ou estrela da manhã, é de ascendência mítica em literaturas antigas, e “aplicado ao rei de Babilônia equivale a título divino”.[7] Título aplicado de forma pejorativa, pois o rei babilônico, com sua glória e pomposidade, se considerava entre os deuses.[8] Mas a profecia coloca o rei em seu devido lugar a partir do versículo 15. Leia o texto, vai ajudar a entender melhor a reflexão, clique aqui.
Oropeza afirma: “O rei da Babilônia, não Satanás, está em foco, porque ‘subjuga as nações’ (Is 14.12). É difícil ver como Satanás poderia subjugar nações inteiras em sua queda original, quando elas ainda nem existiam”.[9]
O fato é que, não se encontra amparo nem no Novo Testamento nem nos escritos dos pais apostólicos[10] nenhuma afirmação de que Satanás uma vez foi um belo anjo chamado Lúcifer. Como já dissemos acima, foi a partir do séc. III, com Orígenes, que essa associação começou e nunca parou. Contudo, uma exegese honesta com o texto bíblico não pode cometer esse erro. Dizer que Lúcifer é Satanás é ser arbitrário na escolha dos versículos. É ler o texto isolado de seu contexto, acreditando que ele contém uma verdade escondida, mais espiritual. É querer fazer o texto falar algo que ele não quer falar! Não é dessa forma que se lê e interpreta a Bíblia. Eu não posso escolher dois ou três versículos bíblicos, isola-los e dizer que eles querem dizer tal coisa.
O texto de Is 14 sempre é comparado com Ez 28:11-19. Não iremos entrar em detalhes agora, mas os mesmos princípios aplicados em Isaías servem para Ezequiel. Só deixo de tira gosto o v. 2 do cap. 28 “"Filho do homem, diga ao governante de Tiro: Assim diz o Soberano, o Senhor: "No orgulho do seu coração você diz: 'Sou um deus; sento-me no trono de um deus no coração dos mares'. Mas você é um homem, e não um deus, embora se considere tão sábio quanto Deus”.
Podem perguntar: “se esses textos bíblicos não falam da queda de Satanás, onde fala?” A bíblia não relata com clareza a queda de Satanás, pois ele não é seu foco, assim como os anjos, é assunto marginal. Calvino afirma: “Murmuram alguns por que a Escritura não expõe, sistematicamente e distintamente, em muitas passagens, essa queda e sua causa, modo, tempo e natureza. Mas uma vez que essas coisas nada têm a ver conosco, lhe pareceu melhor, ou não dizer absolutamente nada, ou que fossem apenas tocadas de leve, pois não foi digno do Espírito Santo alimentar-nos a curiosidade com histórias fúteis, destituídas de proveito. E vemos ter sido este o propósito do Senhor: nada ensinar em seus sagrados oráculos que não aprendêssemos para nossa edificação”. As Institutas I 14.16.
Só enfatizo que com esse texto não estou negando a existência ou queda de Satanás, estou apenas dizendo que não temos amparo exegético seguro para chama-lo de Lúcifer. Satanás tem muitos nomes, mas não Lúcifer. Aliás, se tem alguém na bíblia, digno de receber esse nome, é o próprio Cristo, ele sim, é a verdadeira Estrela da Manhã (Ap. 22.16).[11]
Ficou claro? Caso não, use os comentários para postar a sua dúvida. Vamos caminhar juntos!
Rodrigo "Bibo" de Aquino é autor do livro Rascunhos da Alma e faz o podcast do portal http://www.formulados.com.br/
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[1] As entrevistas com o demônio começaram no Brasil, com intensidade, a partir da década de sessenta com a Igreja Deus é Amor e ganhou força nacional com as igrejas neopentecostais (pseudo-pentecostais para alguns teóricos como Robinson Cavalcante).
[2] A palavra hebraica seirim é traduzida em algumas versões (como a NVI) como “ídolos bodes”. Na tradição hebraica os seirim eram chamados “peludos”, uma referência a espíritos malignos.
[3] Algum livro do Lewis não é magnífico?
[4] CROSS, F. L.; LIVINGSTONE, E. A. (org) In: OROPEZA, B. J. 99 perguntas sobre anjos, demônios e batalha espiritual. São Paulo: Mundo Cristão, 2000. p. 85.
[5] D.H.W. Lúcifer In: DOUGLAS, J.D. (org) Novo dicionário da bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 967.
[6] Algo bem típico da raça humana desde Adão!
[7] SCHÖKEL, L. A.; SICRE DIAZ, J. L. Profetas I Isaías – Jeremias. São Paulo: Paulus, 1988. p. 181.
[8] D.H.W. Lúcifer In: DOUGLAS, J.D. (org) Novo dicionário da bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 967.
[9] OROPEZA, B. J. 99 perguntas sobre anjos, demônios e batalha espiritual. São Paulo: Mundo Cristão, 2000. p. 85.
[10] Homens que preservaram a doutrina dos apóstolos no segundo século da era cristã.
[11] D.H.W. Lúcifer In: DOUGLAS, J.D. (org) Novo dicionário da bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 967.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
A Teologia da Cruz
Por Fernando Albano
No Evangelho de Marcos observamos uma verdadeira teologia da cruz. Há uma notável identificação de Deus com a fraqueza e miséria humana. O Messias é alguém que sofre na cruz (Mc 9.9-10; 15.39), portanto, é um servo sofredor; algo paradoxal para a figura do Messias triunfante e poderoso conforme entendida pelo Judaísmo da época (Is 53.1-7). Nesse sentido, a teologia da cruz em Marcos fundamenta-se na identificação divina com o sofrimento humano. O amor e a justiça de Deus conduzem Jesus à cruz. É na cruz que ocorre a maior revelação de Deus: o pecado é apresentado como algo terrível que resultou na morte do Filho e, além, disso ficou comprovado o amor de Deus. “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores” (Rm 5.8).
Em tempos de confusão doutrinária e igrejas-empresas, comprometidas com a conhecida “Teologia da Prosperidade”, parece-nos salutar atentar para a realidade dura e crua, como Marcos nos apresenta a revelação de Deus. Deus não se revela plenamente por intermédio de bênção e milagres, mas sim na terrível cruz.
Vale considerar que, se o Filho de Deus obteve fim tão trágico, ainda que tenha sido por nossos pecados, o que não poderá suceder aos seus discípulos? “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará” (Mc 8.34-35).
Marcos enfatiza a morte de Jesus em boa parte de seu evangelho. Mais ou menos um quinto do seu conteúdo é dedicado à morte e ressurreição de Cristo (1). Marcos não deixa dúvidas de que a cruz é central em seu livro. E, como vimos esta morte de Jesus tem implicações para o discipulado cristão, especialmente no que tange a morte do nosso ego. Contudo, não foi apenas para se identificar conosco e nos dar exemplo, que Cristo assumiu a condição humana e morreu, mas principalmente para expiar (2) a nossa culpa. De acordo com Marcos, o pecado da humanidade foi o principal motivo da morte e ressurreição de Jesus Cristo (Mc 8.31; 14.31).
A morte de Jesus não ocorreu apenas por que ele atacou as estruturas religiosas da época; por que em sua vida demonstrou aspectos revolucionários que teriam motivado o desfavor do império romano, resultando em sua condenação à morte. Estes aspectos, apesar de serem verdadeiros não constituem o motivo central da morte de Jesus. Acima de tudo sua paixão cumpre com o desígnio redentor de Deus. Sua morte tem efeito vicário, isto é, Cristo morreu em lugar do pecador, segundo o desígnio de Deus.
Infelizmente, há teólogos que negam a necessidade da morte de Jesus para a efetivação da reconciliação. Ensinam que Jesus não teve que morrer para que Deus pudesse perdoar os homens. Deste modo, minimizam o conceito de “ira de Deus”, claramente exarado nas Escrituras (Rm 1.18; Mt 23.33; Jd 14,15).
Para Marcos a morte de Jesus não era comum. No Calvário aconteceu algo significativo para a humanidade. Além de Jesus morrer em lugar do ser humano pecador, sua morte tem um caráter de resgate: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (10.45). Segundo Morris:
Resgate era o termo relacionado com o preço pago para libertar um prisioneiro de guerra, um escravo ou alguém sentenciado à morte. Ele não diz do que está libertando as pessoas, mas, no contexto deste evangelho, claramente se trata de liberdade do pecado e de uma vida pecaminosa. Essa liberdade não vem de modo fácil ou automático. Ela tem um preço, e Jesus pagou esse preço. (3)
De acordo com o evangelista, este resgate está intimamente ligado ao ato de Jesus beber do “cálice”, que representa o sofrimento da punição retributiva (14.36). Isto de conformidade à vontade de Deus. Na última ceia, Jesus deixou bem claro, que o pão e o cálice representam o seu corpo e sangue que seria “derramado em favor de muitos” (12.22-24) (4). Deste modo, parece irrefutável que Marcos defende a ideia de que a morte de Jesus não foi algo acidental, mas realização do propósito de Deus e, que o próprio Jesus estava consciente disto. Convém destacar que Paulo, o primeiro teólogo da Igreja primitiva já defendia tais conceitos (1 Co 15.3-4) (5). Definitivamente Jesus pagou o preço do resgate da humanidade, e, isso faz parte do propósito de Deus. (6)
Para a Igreja primitiva, a interpretação da cruz como fazendo parte do projeto de Deus foi de fundamental importância para acreditar em Jesus ressuscitado. Não há dúvidas de que as comunidades cristãs entenderam a morte de Jesus na cruz como mediação para reconciliar a humanidade com Deus (Rm 5.6,10; 14,15; 1 Co 8.11; 2 Co 5.18-19), libertando-nos da lei (Gl 3.13). A teologia de Marcos vai nesta direção, de tal modo, que pode perfeitamente ser denominada de “teologia da cruz”.
Isto posto, hoje, as igrejas comprometidas com a Bíblia devem alçar a bandeira da “teologia da cruz”, e seguir pregando o Evangelho que cura, liberta, abençoa, mas que também chama para a renúncia, morte do ego, enfim para a cruz.
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1 - MORRIS, Leon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2003. p. 117.
2 - Expiação em sentido religioso, como era compreendida em todo o mundo antigo, pressupõe que o mundo está sujeito a uma ordem cuja não observância é castigada pelos poderes supra-mundanos. Somente a expiação, portanto, pode romper uma reação em cadeia de pecado e desgraça.GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 3. ed. São Paulo: Teológica, 2003. p. 210.
3 - MORRIS, 2003, p. 132-33.
4 - Vale ressaltar que, as comunidades cristãs conheciam muito bem a ceia. Deste modo, o evangelista Marcos ao realçar a relação da ceia com o salvador, contribui para livrar o rito cristão de ser compreendido como mera mecânica litúrgica.
5 - Segundo especialistas, os escritos do apóstolo Paulo (anos 50 do século I) antecedem os Evangelhos. Cf. BROWN, Raymond E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 58.
6 - A quem Jesus pagou o preço do resgate da humanidade? Alguns afirmam que Jesus pagou ao diabo. Mas esta interpretação é completamente equivocada, pois a humanidade pecou contra Deus, logo, a dívida diz respeito a Deus e não ao diabo. Portanto, Jesus quitou a nossa dívida junto à justiça divina (Cf. 1 Jo 4.10). Por outro lado, hesitamos em falar em pagamento de “resgate” a Deus Pai, porque não era ele que nos mantinha como escravos, mas sim nossos próprios pecados.
7 - GASS, Ildo Bohn. Uma introdução à Bíblia: as comunidades cristãs da primeira geração. São Leopoldo: CEBI; São Paulo: Paulus, 2005. p. 38-39.
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