domingo, 20 de setembro de 2009

Dicotomia ou Tricotomia?

Como a Bíblia divide o ser humano? Ou melhor, ela o divide? Somos uma criatura dividida? Como entender corpo, alma e espírito?
Antes de procurarmos um posicionamento que se aproxime das escrituras, é importante definirmos os termos tricotomia e dicotomia.[1]

–> tricotomia: o termo, que significa uma “divisão em três partes” (gr. tricha, “em três partes”; temnein, “cortar”), é aplicado na teologia à divisão tríplice da natureza humana em corpo, alma e espírito. Esse conceito desenvolveu-se da divisão dupla feita por Platão [...]. Os escritores cristãos primitivos, influenciados por essa filosofia grega, acharam a confirmação da sua opinião em 1Ts 5.23: “os mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo, sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. Em uma versão de tricotomia, Deus habita o espírito (a pessoa interior) e o liberta da escravidão à alma (pessoa exterior) e ao corpo (a pessoa mais exterior) e faz a alma e o corpo subservientes ao espírito.
–> dicotomia: este termo, que significa uma divisão em duas partes (grego dicha, “em dois”; temnein, “cortar”), aplica-se na teologia àquele conceito de natureza humana que sustenta que o homem tem duas partes fundamentais no seu ser: o corpo e a alma/espírito, uma parte material e outra imaterial.[2] Por influência de Agostinho e dos reformadores protestantes, a dicotomia tornou-se a opinião estabelecida na teologia ocidental. J. G. Machen, por exemplo, afirmou ser inquestionável que a Bíblia “reconhece a presença de dois princípios ou substancias distintos no homem – o corpo e a alma”. Para ele, e à maioria dos exegetas, alma e espírito simbolizam a mesma realidade.

Problemas da interpretação tricotômica do ser humano

Essa interpretação da natureza humana, pode, facilmente, deixar despercebida a tremenda ênfase bíblica na integralidade e na unidade, onde mesmo no texto “prova” em Tessalonicenses, Paulo ora para que sejam santificados em tudo, e que [todo - ARC] seu espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros.
Geralmente, a escola teológica que defende a tricotomia, reduz o corpo a “carcaça”, “templo”, “receptáculo”, etc. da alma e espírito. Leiamos essas declarações:


Em resumo, a imagem de Deus, no homem, refere-se à imagem espiritual e moral, conforme a semelhança de Deus; e também à imagem natural, pelo fato de o homem ser uma pessoa, à semelhança de Deus, que também é Pessoa. Quanto ao corpo, foi feito por Deus para abrigar a parte espiritual do homem, formado por espírito e alma.
O corpo não é a imagem de Deus, porque é formado do “pó”. Porém, o Senhor soprou nele a nephesh _ a vida física da alma que possui a imagem e semelhança de Deus (Gn 2.7) Os impulsos físicos, pois, encontram-se sob o controle do espírito humano, a sua parte superior.
Os impulsos físicos, pois, encontram-se sob o controle do espírito humano, a sua parte superior.
[3]


Nessa perspectiva, a utilidade do corpo se resume a “abrigar” a parte espiritual do ser humano, de modo que, se estabelece a superioridade deste em relação àquele. De acordo com estas declarações, alma e espírito abrigam a imagem de Deus, portanto, a dimensão espiritual do ser humano é privilegiada e tem relação direta com Deus. Quanto ao corpo, este possui relação direta com a alma e espírito e só num segundo momento, há relação com Deus.

O corpo na concepção tricotômica está excluído daquilo que constitui a “imagem e semelhança” de Deus, tendo como função abrigar a parte espiritual do homem, isto é, o espírito e a alma. Aqui se percebe uma nítida desvalorização do corpo porque a dignidade do ser humano está no fato de ser semelhante a Deus. Sendo o corpo excluído do vínculo com esta semelhança de Deus, pois é privilégio apenas da alma/espírito, fica estabelecido a divisão do ser humano. Uma parte sua é imagem e semelhança de Deus enquanto outra não.

Tudo no ser humano é Imago Dei (falo mais sobre isso aqui), e o ser humano não tem corpo, ele é corpo (entenda mais clicando aqui). É preciso entender que os muitos termos que a Bíblia utiliza para se referir as partes específicas do ser humano, dizem respeito ao ser humano com um todo. Vemos muito isso em Paulo, pois ele frequentemente indica a pessoa toda por meio de termos que em outros contextos designam um aspecto ou uma dimensão da pessoa. Ao fazê-lo, ele não contradiz o outro emprego, nem confunde a parte com o todo. Ele vê a pessoa toda de um ponto de vista determinado, ou realça a contribuição de determinado aspecto para o funcionamento do todo.[4]

Em 1Ts 5.23 onde Paulo parece dividir a pessoa em três partes. Mas a intenção de Paulo é exatamente o contrário: “Que o Deus… vos santifique totalmente (holísticamente)…”, longe de dividir a pessoa, Paulo expressa a esperança de que os crentes, mediante a obra santificadora de Deus, sejam salvos da desintegração e preservados como seres completos (holos). Ele junta os três termos (somente aqui) para enfatizar, não para definir.[5]

Na próxima parte de nosso estudo, vamos entender que Paulo não valoriza o espírito em detrimento do corpo, o coração em detrimento da razão, Paulo enxerga o ser humano como um todo, tanto que a salvação do ser humano não acontecerá sem o corpo (1Co 15).

____
[1] Utilizaremos as definições de WARD W. E. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 1984. Vol. 1 e 3. e de REASONER, M. In: HAWTHORNE, G. F. (org.) Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova/ Paulus/ Loyola, 2008. p. 1021-1033.[2] Existe também autores que rejeitam a dicotomia e defendem que o ser humano é retratado na Bíblia como uma totalidade, um todo, um ser unitário, que nesta vida presente não pode ser assim dividido. Esse pensamento, denominado Monismo, encontra amparo na antropologia do AT.[3] GILBERTO, Antonio. (Ed.) Teologia sistemática pentecostal. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p. 259 e 307.[4] REASONER, M. In: HAWTHORNE, G. F. (org.) Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova/ Paulus/ Loyola, 2008. p. 1021-1033.[5] REASONER, M. In: HAWTHORNE, G. F. (org.) Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova/ Paulus/ Loyola, 2008. p. 1021-1033.

4 comentários:

Antonio / Eliane disse...

Paz e Graça irmão

Texto de grande profundidade,estudo maravilhoso e esclarecedor, que nas igrejas dificilmente é pregado pois infelizmente o nosso povo sofre por falta de entendimento.E muitas vezes não querem pensar e nem tampouco refletir.
Aproveitamos o ensejo para convida-lo a passar no nosso blog. quebrandocadeiasdomedo.blogspot.com
Esperamos o irmão lá.

Antonio e Eliane (Carvalhos de Justiça).

Alex Malta Raposo disse...

Nossa,

que texto maravilhoso.

E confrontador, claro.

Parabéns pelo espaço.

Se quiserem visitar o meu, o endereço é www.vivendooevangelho.blogspot.com

Gil disse...

Longe de querer debater, pois prezo a unidade cristã. apenas acho generalizante e um olhar de fora sobre quem ensina a tricotomia. ser corpo, alma e espírito não é desvalorizar o corpo. Deus fez o corpo e viu que era muito bom, como tudo o que fizera materialmente. Acontece que o diferencial do homem em relação aos demais seres não é o corpo, mas sim todo o potencial criativo, volitivo, sentimental e racional do homem, caracteres imateriais comunicados por Deus (atributos comunicáveis)e que levam o homem a uma relação diferenciada com Deus (seja crendo ou negando). Nesse sentido somos sua imagem e semelhança. Sem contradição, esses são elementos almáticos, mas o homem não poderia ser uma alma ambulante e intangível, responsável pela "administração" dos seres criados (Gn. 1.28)materialmente. Também o corpo é a referencia tengível, o visível das nossas relações. Por isso Deus não mandou anjos evangelizarem; Por isso Ele diz que se não amamos a quem vemos, não podemos dizer que o amamos; O corpo tem sua importancia material, num mundo material e é um instrumento de expressão do que vai em nossa alma, esteja o nosso espírito vivo ou morto (morte espiritual sofrida pelo primeiro homem). Com muito respeito e apego ao diálogo, Gil.

BiboTalk disse...

Olá Gil,

mas nosso corpo não é somente uma ferramenta para vivermos aqui. Como parte do que somos, ele tbm será salvo e restaurado 1Co 15.

o problema da tricotomia é justamente esse, desvalorizar o corpo e reduzi-lo a bainha da alma. Além dos problemas exegéticos gravíssimos que sustentam a tricotomia....

leste a parte final do estudo?

mas enfim, são pontos de vista!

forte abraço!

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