segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Caça as Bruxas


Quando eu estava, na antiga 5ª série, a professora de português fez um trabalho, onde os alunos teriam que procurar erros gramaticais em cartazes e placas de lojas, outdoors, cardápios, vitrines, etc. Ela batizou o trabalho de Caça as Bruxas. Foi um trabalho interessante. Desde que me formei em teologia, caço algumas bruxas nos púlpitos da vida... não é por mal, é por hábito...

Num final de semana há algum tempo atrás, numa igreja, eu ouvi as seguintes declarações:

1 – um pastor em meio ao seu empolgante discurso sobre o amor de Deus falou: “irmãos, Deus nos amou tanto, que veio a esse mundo e se encarnou num homem”...

2 – outro, ao falar sobre o por que sentimos saudades do céu disse: “sabe por que sentimos saudades do céu? Porque nossa alma veio de lá”.

3 – uma dupla cantou um hino que dizia no refrão: “o anjo vai descer aqui e te abençoar” (não só no refrão, mas em toda letra o anjo era o agente da bênção).

4 – e por último, que não se encaixa no rol de heresias, mas de falta de sensibilidade. O pregador, no afã de falar que a presença de Deus nos cura de todos os males, bradou: “irmãos, esses centros de recuperação só estragam as pessoas, elas entram ruim e saem piores, a pessoa tem que ir é para a igreja”.

Eu reconheço que existem desvios teológicos bem mais graves e que esses que apresentei acima não são um “bicho de 7 cabeças”, contudo, acredito que apesar de serem pequenos, devem ser corrigidos:

1 – Deus não se encarnou num homem chamado Jesus de Nazaré. Na antiguidade apareceram muitas doutrinas cristológicas semelhantes, que foram tidas como heresias (Nestório, ebionitas, monofisismo, etc.). Maria gerou em sem ventre o menino Deus. Temos que nos firmar na decisão do Concílio de Nicéia, na fórmula do homooúsios (da mesma substância) onde Cristo é da mesma substância que o Pai e confessarmos o credo niceno-constantinopolitano que diz: “e em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado pelo Pai, unigênito, isto é, da substância (ex tes ousías tou patrós) do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não feito, de uma só substância com o Pai (homoousion to patrí) pelo qual foram feitas todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra; o qual por nós seres humanos e por nossa salvação desceu, foi feito carne do ES e da virgem Maria, e tornou-se humano, e foi crucificado por nós sob o poder de Pôncio Pilatos...”[1].

2 – Dizer que a alma veio do céu é o mesmo que dizer que a alma é pré-existente, e a Bíblia não fala nada nesse sentido, Platão fala. Para Platão, a alma é um ser eterno, de natureza espiritual, cuja função principal é conhecer o mundo ideal e transcendental. Platão afirma que a alma humana, é imortal e de natureza espiritual e inteligível, sofreu uma espécie de queda original, causada por um mal radical (o que chamamos de pecado). Afirmar que a alma veio do céu além de anti-bíblico é engraçado, pois fico imaginado Deus com saquinho de almas. Se o ser humano foi criado por Deus, logo, todo ele provém de Deus, mas isso não quer dizer que nossa alma estivesse em Deus, numa pré-existência. Pensar dessa forma é reduzir o corpo a receptáculo da alma, e isso não é bíblico também, como vimos nos estudos abaixo
. Por exemplo, o termo hebraico néfesh, geralmente é traduzido como alma em muitas de nossas traduções. Isso é problemático, porque geralmente já lemos o texto tendo em mente a compreensão platônica de alma: algo preso dentro do corpo, separado do corpo. Para termos uma idéia, néfesh abarca em seu campo semântico aproximadamente sete significados (garganta, pescoço, anelo, alma, vida, pessoa, pronome) e hoje podemos concluir que em poucas passagens a tradução dessa palavra por “alma” corresponde ao significado de néfesh. Dois exemplos pertinentes:
A – em Gn 2.7, certamente néfesh não significa alma. Ela dever ser vista em Gn 2.7 em conjunto com a figura total do ser humano, especialmente com sua respiração; por isso o ser humano não tem néfesh ele é néfesh, vive como néfesh.
B – Quando diz sobre Raquel (Gn 35.18) que sua néfesh “saiu” quando ela morreu, de acordo com o Antigo Testamento, só podemos pensar em respiração, e não em alma. [2]

3 – preciso comentar mesmo? Anjos são servos e não merecem adoração, destaque e nem hino. Dedicar hinos a anjos como agentes da bênção é trocar os pés pelas mãos, é roubar a glória de Deus. Ouvindo esse hino, dá até vontade de orar para o anjo...


4 – Infeliz essa colocação. Falar uma coisa dessas é focar nos casos que não deram certo. É esquecer-se das muitas pessoas que se recuperaram nesses centros de tratamento e voltaram a viver em sociedade, voltaram para as pessoas que a amam, é esquecer que esses centros são, para muitas famílias, a única chance de uma nova vida, pois ninguém mais quer, nem mesmo as igrejas. Essas casas de recuperação fazem um excelente trabalho. Acompanhei um pouco o trabalho do CERENE, e vi pessoas sendo transformadas e se rendendo ao evangelho.

Cada tópico aqui poderia ser mais explorado, mas já estouramos o limite de linhas e o tempo do ócio se foi...

Se quiseres aprofundar um pouco sobre a questão da alma, principalmente o tema imortalidade da alma, clique aqui e leia o artigo do Prof. Dr. Euler Westphal na revista Vox Scripturae.



[1] DREHER, Martin N. Coleção história da Igreja. São Leopoldo: Sinodal, 2004. v. 1. p. 68.
[2] Ver o brilhante estudo de WOLFF, Hans W. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2007. p. 33-56.

2 comentários:

Mario Sérgio disse...

Realmente essa postagem é muito oportuna, pois certas colocações heréticas se fazem, e outros repetem sem atentar para o significado das frase que dizem.

MAC disse...

Ótimo texto Bibo :)

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