sexta-feira, 8 de maio de 2009

Miojinho nosso de cada dia...

Quem frequenta uma igreja pentecostal há mais de cinco anos, provavelmente já escutou o jargão: “Porque na presença de Deus até a tristeza salta de alegria”. Você já leu o contexto desse versículo bíblico? Vamos juntos então analisar Jó 41.22[1]... vamos ao miojinho nosso de cada dia:

Uma rápida olhada no contexto do versículo em questão nos revela algo interessante: Não é na presença de Deus que a tristeza salta de alegria/prazer, mas do Leviatã/monstro marinho/(crocodilo?). No poema anterior, também aparece um animal, o Beemot, onde as descrições apontam hiperbolicamente para um hipopótamo.[2]

No terceiro poema que compõem o segundo discurso de Javé a Jó é que encontramos essa figura, o Leviatã. Tanto na descrição do Beemot como na do Leviatã, aparecem características que vão além do reino animal, nos levando a crer que a intenção do autor ao colocar esses dois seres nos discursos de Javé é apontar para outra realidade, pois no discurso anterior Javé já havia se revelado como Senhor dos animais.

Nessa teofania Javé está mostrando a Jó que é Senhor sobre todas as coisas, inclusive desses dois monstros, que aqui provavelmente simbolizam as forças do mal. Nas palavras de Ternay:

“Quanto mais progredimos na leitura dessa poema mais se torna evidente que o mosntro não é um simples crocodilo. O Leviatã é descrito aqui com feições que supõem uma mitologia lírica do mal cósmico, o que permite ao autor utilizar esta figura como um símbolo das forças do mal atuando na história, presente na humanidade”.[3]

Bem, muitas outra coisas poderiam ser escritas, mas como é só um miojo, vamos parando por aqui. O que fica claro é que esse versículo é erroneamente utilizado pelos pregadores que dele se apropriam, pois em nenhum momento Leviatã é sinônimo de Javé, pelo contrário, é hostil a Ele.

Bem, da próxima vez que ouvirem o jargão, orientem o pregador a ler o capítulo inteiro.

_______
[1] Bíblia de Jerusalém – Em seu pescoço reside a força, diante dele corre o pavor. Bíblia do Peregrino – Em seu pescoço se assenta a força, diante dele dança o terror.
[2] SCHÖKEL, Luís Alonso. Bíblia do Peregrino. 2 ed. São Paulo: Paulus, 2006. p. 1142.
[3] TERNAY, Henri de. O livro de Jó: da provocação à conversão, um longo processo. Petrópolis: Vozes, 2001. p. 299-307.

3 comentários:

Dionei Machado disse...

Se não fosse trágico seria cômico. Mas infelizmente já ouvi várias vezes este jargão. Creio sim que Deus tem poder para converter a nossa tristeza em alegria, não é esse o ponto aqui como você já explicou, o ponto é que esse é mais um texto mal interpretado entre tantos e que é tão difundido em nossas igrejas. Mas entende-se com isso o quanto o estudo da palavra de Deus é negligenciado ou feito de forma superficial.
Abraços

Rodrigo de Aquino disse...

Dionei,

isso mesmo, esse é o ponto!

forte abraço...

rodrigo

Willian Rochadel disse...

Caracas, curti demais esta.
Necessitamos de mais miojo, quem sabe rola um Cup Noodles.

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