sexta-feira, 10 de julho de 2009

Ainda sobre a marcha...

Alguns amigos e amigas participaram da marcha e foram unânimes em relação à organização do evento: muito bem organizado. Outro fator positivo é que maioria realmente marchou e poucos estavam na Arena quando a multidão chegou. A marcha aconteceu e cumpriu de certa forma seus objetivos, o povo declarou publicamente a sua fé, oraram e adoraram juntos, e de fato, isso não é irrelevante, e ainda que não seja o suficiente, pode ser um começo.

No portal do meu programa de rádio, alguém provavelmente ligado a organização da marcha deixou o seguinte recado:
"Queridos irmãos, gostaríamos de agradecer a todos que divulgaram e participaram da Marcha para Jesus em Joinville. Aos poucos, nos próximos dias, estaremos fazendo a cobertura completa [...] e também definindo o caminho para a continuidade dos propósitos: união, clamor, oração, solidariedade e ação (grifo meu)."

Se isso acontecer, colocarei junto a mão no arado direi que a marcha para Jesus foi relevante. Creio que as igrejas precisam mesmo se unir em prol da divulgação do evangelho e da transformação social. Ok, com a marcha, em partes divulgamos o evangelho, agora vamos para a transformação através do evangelho integral.

Acabei de assistir ao filme A Troca, de Clint Eastwod, com Angelina Jolie e John Malkovich, sei que Ricardo Gondim já comentou o filme, mas quero assinar em baixo. Malkovich interpreta o Reverendo Briegleb que não só denuncia os desvios do departamento de polícia da cidade, como age em prol da causa da Sra. Collins. Creio que agir de forma profética é agir como Briegleb. Para entender o que é ação profética é só ler os profetas na Bíblia, e verás palavras acompanhadas de ações. Ação profética é ação concreta numa realidade e não ficar “declarando” Joinville é do Senhor Jesus, esse tipo de coisa, realmente, é irrelevante e não muda nada.

Oxalá a comissão de pastores continuar se mobilizando e chegar a esse ponto, de unir as igrejas em prol de transformação social, não é tarefa fácil, mas, juntos somos mais (CN).

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A (Ir)relevância da Marcha para Jesus!

Joinville terá sua primeira* Marcha para Jesus. O evento está sendo promovido pelo conselho de pastores da cidade. O tema da marcha é sobre a família e segundo um dos envolvidos: dia 04/07 o povo de Deus vai marchar pelas ruas da cidade para abençoar as famílias [...] a atmosfera de Joinville irá mudar!

Não sou contra a marcha, só começo a me perguntar pela relevância dela! Creio que unir as igrejas é o ponto alto da manifestação. É empolgante ver a Igreja do Senhor unida num único propósito. Mas receio que o propósito esteja equivocado. Será que sair pelas ruas é a melhor maneira de abençoar as famílias da cidade? Tenho minhas dúvidas, pois não creio que “eventos” mudem duras realidades. Tenho minhas dúvidas se uma marcha tira um pai afogado no álcool e o torna sóbrio para a sua família. Disseram que na marcha terá intercessão pelas famílias, isso é bom, pois creio que Aquele que ouve nossas orações é poderoso para livrar o ser humano do vício, etc. Porém, oração sem ação é inútil e me parece, com base naquilo que tenho ouvido, que só ficará na oração, no evento, no espetáculo.

Será que nossos irmãos e irmãs estão conscientes do sentido da marcha ou só querem aproveitar os shows que a embalam? Bem, vamos ver quantas pessoas estarão marchando e quantas estarão na Arena Joinville na apresentação do David Q., Mauríci Paes e FdH. Espero estar errado!

As igrejas devem se unir e testemunhar de Cristo, mas com ações concretas na sociedade de Joinville. Deveríamos marchar testemunhando de Cristo e protestando contra o aumento da passagem de ônibus, aumento da água, injustiça social, etc. Deveríamos nos unir e fazer campanhas solidárias que promovessem dignidade humana. Deveríamos nos unir para sermos relevantes e fazermos a diferença, mas não no discurso, mas na prática!

Finalizo deixando bem claro que respeito os organizadores, os que acharam a idéia uma bênção, os que apóiam porque são obrigados por algum motivo, enfim, todos que estarão lá marchando. Só quero gerar uma reflexão e dar minha opinião, nada mais!
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* errata: Segundo o "ocioso" JB, Joinville há dez anos atrás teve uma marcha para Jesus.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Acessórios de Deus

Ao comentar sobre a teofania no Horebe no contexto da história de Elias, von Rad faz um comentário interessante, ele diz:

No Antigo Testamento, quando Deus aparece, o que é importante é a palavra que Deus comunica. Os fenômenos que a acompanham são sempre acessórios [...][1]

Hoje em dia, parece que escolhemos viver somente com os acessórios, dispensamos Deus. Tornamos a religião um bom negócio, onde oferecemos salvação à alma cansada e lhe vendemos “os acessórios” de Deus, o que Ele fala não importa muito.

Acredito que a maioria (há exceções) dos grandes conferencistas, pregadores de multidões, enfim, toda essa corja, um dia se importaram com a voz de Deus, para o evangelho que emana da maior teofania divina: o calvário. Mas parece-me que na metade do caminho, resolveram enfatizar “os acessórios”, e deu certo: o povo comprou a idéia e foi atrás. A partir de então o evangelho foi diluído no dando é que se recebe, bênçãos e vitórias, pobreza é maldição, doença é possessão, etc.

Caíram na tentação que Jesus venceu no deserto: dar o show, o espetáculo, impressionar a multidão! Transformaram as pedras em pão, pularam do lugar mais alto do templo e se dobraram ao Diabo para ganhar todos os reinos da terra. Tudo isso em nome de Jesus é claro!
Esse evangelho genérico cresce a cada dia em nossos púlpitos e parece que não há muito que fazer, pois os que pensam diferente são minoria e nem sempre tem oportunidade na comunidade, então, o jeito é escrever um testinho no blog[2] e pedir à Deus: Não me deixes cair em tentação!

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[1] RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. 2 ed. São Paulo: ASTE/TARGUMIM, 2006. p. 462.
[2] O que é meio inútil, pois quem merecia ler isso dificilmente lerá, e mesmo que por um acaso lesse, não daria a mínima.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

As injustiças e os Absurdos da Vida


De novo olhei a e vi toda a opressão que ocorre debaixo do sol:

Vi as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; o poder está do lado dos seus opressores, e não há quem os console.
Por isso considerei os mortos mais felizes do que os vivos, pois estes ainda tem que viver!
No entanto, melhor do que ambos é aquele que ainda não nasceu, que não viu o mal que se faz debaixo do sol.

Descobri que todo trabalho e toda a realização surgem da competição que existe entre as pessoas. Mas isso também é absurdo, é correr atrás do vento.

O tolo cruza os braços e destrói a própria vida.Melhor é ter um punhado com tranqüilidade do que dois punhados a custa de muito esforço e de correr atrás do vento.

Descobri ainda outra situação absurda debaixo do sol:

Havia um homem totalmente solitário; não tinha filho nem irmão. Contudo os seus olhos não se satisfaziam com a sua riqueza. Ele se perguntava: “Para quem estou trabalhando tanto, e por que razão deixo de me divertir?” Isso também é absurdo; é um trabalho por demais ingrato.
É melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas. Se um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se. Mas pobre do homem que cai e não tem quem o ajude a levanta-se! [...]

Um cordão de três dobras não se rompe com facilidade.

Eclesiastes 4 – NVI

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Não sou eu sem você...

Somos seres sociais, foi assim que Deus nos fez. É o conjunto de pessoas que me torna ser humano. É a cultura que confere humanidade ao indivíduo, por meio das “práticas que criam a existência social, econômica, política, religiosa, intelectual e artística”[1], dessa forma, posso quase afirmar que a existência enquanto ser humano está condicionada a existência de um próximo.

Ultimamente venho percebendo o quanto o “meu” “eu” é a mistura dos “eus” que rodeiam, que “eu”, sou na verdade um pouco de cada um. Tenho experimentado muito isso, ao notar como a minha mãe me completa, como a minha noiva me completa, meus amigos e até meu chefe. E essa percepção, vem de pequenas atitudes, das vírgulas da vida. Vejo que estou sendo forjado em gotas.

Ser um pouco de cada um não é ausência de personalidade, mas presença de complementaridade. Quem se fecha em si mesmo e não se deixa complementar é um ser humano incompleto, cego, pobre e nu.

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[1] Cf. CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1995. p. 294-95. Um fato que pode exemplificar a idéia de que a cultura confere humanidade ao ser humano foi o que ocorreu na Índia em 1920, o caso das meninas-lobo. Amala, um ano e meio, e Kamala, oito anos, foram encontradas vivendo com uma família de lobos, ao serem resgatadas não apresentavam nada de humano, pelo contrário, comportavam-se como seus “irmãos” lobos. Caminhavam de quatro com os joelhos e cotovelos para pequenos trajetos e com os pés e as mãos para os trajetos longos e rápidos. Não conseguiam ficar de pé. A alimentação era composta de carne crua ou podre, até o jeito de beber água era como o dos lobos. No instituto onde foram acolhidas, de dia viviam quietas e pacatas sempre em uma sombra, e de noite eram ativas e ruidosas procurando fugir e uivando como os lobos. Amala teve um contato curto com a vida civilizada, pois morreu um ano depois de ser resgatada, já Kamala passou por um processo de humanização, conseguindo ficar de pé somente seis anos depois do resgate, contudo, em 1929 morreu com um vocabulário de dinquenta palavras. Cf. REYMOND, B. in: ARANHA, M. L. de Arruda; MARTINS, M. H. Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. p. 2.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Miojinho nosso de cada dia...

Quem frequenta uma igreja pentecostal há mais de cinco anos, provavelmente já escutou o jargão: “Porque na presença de Deus até a tristeza salta de alegria”. Você já leu o contexto desse versículo bíblico? Vamos juntos então analisar Jó 41.22[1]... vamos ao miojinho nosso de cada dia:

Uma rápida olhada no contexto do versículo em questão nos revela algo interessante: Não é na presença de Deus que a tristeza salta de alegria/prazer, mas do Leviatã/monstro marinho/(crocodilo?). No poema anterior, também aparece um animal, o Beemot, onde as descrições apontam hiperbolicamente para um hipopótamo.[2]

No terceiro poema que compõem o segundo discurso de Javé a Jó é que encontramos essa figura, o Leviatã. Tanto na descrição do Beemot como na do Leviatã, aparecem características que vão além do reino animal, nos levando a crer que a intenção do autor ao colocar esses dois seres nos discursos de Javé é apontar para outra realidade, pois no discurso anterior Javé já havia se revelado como Senhor dos animais.

Nessa teofania Javé está mostrando a Jó que é Senhor sobre todas as coisas, inclusive desses dois monstros, que aqui provavelmente simbolizam as forças do mal. Nas palavras de Ternay:

“Quanto mais progredimos na leitura dessa poema mais se torna evidente que o mosntro não é um simples crocodilo. O Leviatã é descrito aqui com feições que supõem uma mitologia lírica do mal cósmico, o que permite ao autor utilizar esta figura como um símbolo das forças do mal atuando na história, presente na humanidade”.[3]

Bem, muitas outra coisas poderiam ser escritas, mas como é só um miojo, vamos parando por aqui. O que fica claro é que esse versículo é erroneamente utilizado pelos pregadores que dele se apropriam, pois em nenhum momento Leviatã é sinônimo de Javé, pelo contrário, é hostil a Ele.

Bem, da próxima vez que ouvirem o jargão, orientem o pregador a ler o capítulo inteiro.

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[1] Bíblia de Jerusalém – Em seu pescoço reside a força, diante dele corre o pavor. Bíblia do Peregrino – Em seu pescoço se assenta a força, diante dele dança o terror.
[2] SCHÖKEL, Luís Alonso. Bíblia do Peregrino. 2 ed. São Paulo: Paulus, 2006. p. 1142.
[3] TERNAY, Henri de. O livro de Jó: da provocação à conversão, um longo processo. Petrópolis: Vozes, 2001. p. 299-307.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Miojo Exegético

Eu estava um pouco ansioso, pois não atualizava o blog há duas semanas, e blog desatualizado é blog não visitado. Mas ao compartilhar esse sentimento com um amigo e leitor, ele me acalmou, lembrando-me do título do blog: Rodrigo, o título é claro, tu só escreves em momentos ociosos. É verdade, nada melhor do que compartilhar idéias, ser edificado e edificar na “hora do lanche”.

***
Quero fazer uma rápida observação exegética do texto áureo da lição da Escola Dominical do próximo domingo, dia 3/5/09, o texto é 1Co 6.20 que na tradução utilizada pela CPAD (Almeida Revista e Corrigida - ARC) diz o seguinte:

“Porque foste comprado por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus”.

Na 27ª edição do Novum Testamentum Graece (NTG) de NESTLE-ALAND, umas das melhores versões gregas do Novo Testamento da atualidade, o versículo em questão termina na palavra corpo: “Pois fostes resgatados por preço; glorificai pois a Deus com vosso corpo.” (tradução do autor). No texto grego temos uma chamada ao aparato crítico indicando que no v. 20 ocorre um acréscimo, onde alguns manuscritos unciais, edições da Vulgata e versões siríacas, incluem no final do versículo a expressão: kai en to pneumati, atina estin tou Theou [e no vosso espírito, o qual é de Deus].

Percebemos que a ARC ao traduzir o texto opta pelo acréscimo encontrado em algumas versões do texto grego. Contudo, os editores do NTG acertam em não aceitar esse acréscimo, por dois fatores:

1 – O texto utilizado no NTG é embasado no manuscrito P46 e no Códice Sinaítico, ambos, importantes testemunhas dos textos alexandrinos, ou seja, textos mais utilizados pelas comunidades antigas, quem sabe, os mais próximos dos originais.[1]
2 – o segundo aspecto é teológico. Esse acréscimo desvirtua todo o sentido teológico da perícope em que o v.20 faz parte, a saber, 1Co 6.12-20. Caso a expressão fosse aceita, ter-se-ia uma dicotomia na estrutura constitutiva do ser humano, corpo e espírito, idéia inconcebível numa perícope em que soma [corpo] ganha conotação de pessoa e não somente de corpo enquanto matéria corruptível.

Ao comparar o v. 20 nas versões ARA, BJ e NVI percebe-se que todas seguem o texto crítico do NTG, deixando claro que a ARC comete pecado exegético nesse versículo.

Como exposto acima, esse acréscimo destoa do conteúdo teológico da perícope. Para entender melhor, é necessário saber o que Paulo entende por soma. Já postei uma breve análise semântica do termo, se quiser, leia aqui!

***
Deixo bem claro que não tenho nada contra a ARC. Reconheço que essa tradução forjou, e ainda forja, a espiritualidade de milhões de cristãos brasileiros. Contudo, como leitor e pesquisador, prefiro as versões modernas, não somente pelo português atual e fluente, mas pela qualidade exegética.
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[1] Bittencourt diz: “Pode-se adiantar ser este manuscrito (o códice sinaítico) um dos mais valiosos textos do Novo Testamento”. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: metodologia da pesquisa textual. 3 ed. Rio de Janeiro, 1993. p. 81.

domingo, 12 de abril de 2009

Um final de semana diferente

Nessa sexta feira da paixão eu me encontro em paz de espírito. Está sendo um dia de reflexão no sofrimento de Cristo. Um dos pensamentos que me ocorreram foi o de que as agonias e turbulências sofridas por Jesus é que possibilitam esses momentos de paz e esperança. A palavra lembrança nesse final de semana deve ir além do conceito “trazer a memória”, “recordar”. Em o Novo Testamento a palavra grega anamnêsis (recordação) significa “transportar uma ação enterrada no passado, de tal maneira que não se percam a sua potência e a vitalidade originais, mas sejam trazidas para o momento presente”.[1] A sexta feira da paixão e o domingo de Páscoa devem ser mais que um “feriadão” em nossas vidas.

Creio que não deve-se enfatizar a crucificação mais que a ressurreição e vice e versa, afinal, ambos compõem a base da fé cristã. Contudo, o sofrimento de Cristo me chama mais atenção. Talvez, porque faço parte duma geração que é apegada ao visual e a crucificação é uma imagem forte, não sei, só sei que a cruz é escândalo, é a identificação de Deus com o sofrimento, e isso não é para qualquer divindade.

No fim da Idade Média era comum o povo identificar-se com o sofrimento de Cristo, o sofredor por excelência. Nele encontravam, além de conforto em meio às dores, a esperança de superação de todos os males. No entanto, na época de Lutero as práticas de contemplação do sofrimento de Cristo se multiplicaram e se tornaram superficiais. Em 1519, no tempo da Páscoa, o reformador redigiu um sermão sobre a paixão de Cristo, onde pretendia levar a comunidade a uma verdadeira contemplação do santo sofrimento de Cristo.[2] Como vivemos também num período onde o calvário é sublimado por falsas ofertas de vida sem dor e Cristo sem cruz, as palavras de Lutero são atuais.

De acordo com Lutero, a autenticidade do verdadeiro vislumbre da crucificação resulta em assombro. Aquele que medita na cruz percebe o rigor e a ira de Deus para com o pecado e os pecadores. A seriedade é tal que nem seu filho unigênito foi poupado (Is 53.5). Surge a pergunta: o que será dos pecadores, se até o dileto Filho é ferido assim? Refletir sobre a crucificação é reconhecer que o pecado é gravidade indizível. Lutero escreveu:

“E se pensares bem a fundo que é o próprio Filho de Deus, a eterna sabedoria do Pai, quem sofre, não deixarás de ficar assustado, e quando mais profunda for a tua reflexão, tanto mais assustado haverás de ficar.”[3]

Quem crucificou a Cristo? Fomos nós. O reformador nos orienta a enxergarmos os pregos vazando as mãos de Jesus e termos a consciência de que isso é obra nossa: “pois teus pecados são com certeza responsáveis por seu sofrimento; tu és aquele que, através de seu pecado, estrangulou e crucificou o filho de Deus”.[4]

Segundo o sermão, se a pessoa não chegar a um conhecimento de si mesma, assustar-se com seus pecados a ponto de ficar quebrantada, o sofrimento de Cristo não tem proveito para ela. Quem não se assusta consigo mesmo, é porque não entendeu a gravidade do pecado. Lutero acredita que o fiel deve pedir a Deus que o leve a uma meditação frutífera do sofrimento de Cristo, sem essa intervenção divina, tal contemplação não é possível.

“Quanto a quem considerar o sofrimento de Deus por um dia, por uma hora ou mesmo apenas por um quarto de hora, afirmamos abertamente que procede melhor do que jejuar um ano inteiro, orar o Saltério todos os dias [...] pois essa meditação transforma a pessoa [...] É aqui que o sofrimento de Cristo efetua sua obra autêntica, natural e nobre, que estrangula o velho ser humano [...].”[5]

Somos gratos a Deus, visto esse final de semana não acabar em luto, pois ele ressuscitou, e a nossa esperança é viva (1Pe 1.3). Graças a ressurreição a contemplação do sofrimento de Cristo não é vã, pois ainda que ele faça parte de nossa existência, não é a palavra final.
***

[1] MARTIN, R. P. in: HORTON, S. (org.) Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1996. p. 574.
[2] FISCHER, J. in: LUTERO, Martinho. Obras selecionadas: os primórdios – escritos de 1517 a 1519. 2 ed. São Leopoldo: Sinodal: Porto Alegre: Concórdia: Canoas: Ulbra, 2004. p. 249-250.
[3] LUTERO, Martinho. Obras selecionadas: os primórdios – escritos de 1517 a 1519. 2 ed. São Leopoldo: Sinodal: Porto Alegre: Concórdia: Canoas: Ulbra, 2004. p. 251.
[4] LUTERO, Martinho. op. cit. p. 252-53.
[5] LUTERO, Martinho. op. cit. p. 253.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A Cruz

"A cruz continua sendo pedra de tropeço para aqueles que, como Nietzsche, adoram o poder. A cruz é tropeço para todos os que confiam no poder humano e em sua própria capacidade para se salvar. Como os judeus contemporâneos de Paulo, muitos de nós tratamos de nos amparar em nossa própria justiça. Muitas pessoas crêem que Deus está obrigado a aceita-las por suas boas obras. Quem pensa assim tem uma percepção muito pequena de Deus, ou melhor, uma exagerada percepção de si mesmos. Ao contrário, aqueles que tiveram se quer uma visão parcial da majestade de Deus não podem cair em nenhum destes erros.

Nunca ninguém pode se salvar a si mesmo e ninguém nunca o fará. Essa é a mensagem da cruz e por isso é pedra de tropeço para aqueles que têm uma exagerada percepção de seu próprio poder. Assim como a cruz é tropeço para os que confiam em sua própria moralidade, é loucura para aqueles que confiam em sua própria capacidade intelectual. A. G. Ayer, um filósofo de Oxford particularmente famoso logo depois da Segunda Guerra Mundial, escreveu um livro intitulado Linguagem, verdade, e lógica. Assim se referiu com sarcasmo ao cristianismo: De todas as religiões históricas, há muito boas razões para considerar ao cristianismo como a pior, porque descansa em duas doutrinas. A primeira é o pecado original, e a segunda, a expiação vicária de Cristo. Ambas são intelectualmente inconcebíveis e moralmente absurdas. Esta é a perspectiva do mundo sobre a cruz. Ao contrário, para aqueles que Deus chamou, a cruz não é fraqueza senão poder. Não é loucura, senão sabedoria. A cruz é o poder de Deus porque por meio dela Deus fez possível a salvação dos pecadores. Ele nos reconcilia consigo mesmo, nos livra da culpa de Seu justo juízo sobre nossos pecados. Ele no liberta da escravidão de nosso egocentrismo e nos põem nos elevados caminhos da santidade.
Tudo isso é possível só por meio da cruz. A cruz é também sabedoria de Deus, porque por meio dela Deus não só resolve nosso problema senão também, por assim dizer, Seu próprio dilema. Como poderia Deus expressar sua justiça e condenar aos pecadores sem frustrar desta maneira Seu amor por eles? Como poderia expressar Seu amor e perdoar aos pecadores, sem pôr em dúvida Sua justiça? Em outras palavras, como poderia ser, ao mesmo tempo, um Deus justo e salvador? A resposta de Deus foi a cruz. Ali, em Seu Filho, tomou nosso lugar, levou nossos pecados e morreu nossa morte."
John Stott

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