quinta-feira, 17 de abril de 2008

Tendo a companhia de Deus

É impressionante o número de literatura que trabalha este tema: “Intimidade com Deus”. Livro mais livro, e ainda mais esse texto, só que meu anseio é despertar uma visão do tema percorrendo o caminho da oração, pois acredito ser impossível ter intimidade com Deus sem a prática da oração.
A oração em nossos dias tem ganho conotações utilitaristas, onde Deus é colocado contra a parede sendo obrigado a “dar a minha bênção”, oro querendo sempre algo em troca. Outro lado da moeda é a oração como disciplina rigorosa, oro porque me disseram que eu tenho que orar, caso contrário darei “brecha para o inimigo”. Devemos nos perguntar: “Por que oramos?”. Uns dos primeiros pais da igreja, Clemente de Alexandria, disse com muita propriedade: Orar é manter companhia com Deus. Que frase libertadora. Desde que li e reli essa expressão, tenho pensado muito sobre o pedido dos discípulos à Jesus: Senhor ensina-nos a orar, Lc 11.1, esse deveria ser o clamor dessa geração, que até sabe cantar os sucessos da música gospel, mas não sabe exatamente o que é orar.
Você já imaginou ficar 24h por dia ao lado de alguém que quando lhe dirige a palavra é para lhe pedir algo? Mesmo um bebe muitas vezes retribui o alimento dado pela mãe com caras e bocas e sorrisos. Orar é ter amizade com Deus, é constituir um relacionamento com base no diálogo e na confiança. Não é errado pedir as coisas para Deus, porém, é horrível saber que as minhas orações não passam de um meio pelo qual tento convencer a Deus à satisfazer as minhas vontades. Jesus no Getsêmani pediu ao Pai livramento da dor e do sofrimento, contudo não exigiu, não tomou posse, nem determinou nada, simplesmente pediu, e ainda terminou a prece dizendo: não se faça a minha vontade, e sim a tua, Lc 22.42; que exemplo a ser seguido em meio as dificuldades da vida.
Além de saber que posso orar sem cessar, pois onde eu estiver posso falar ou pensar com Deus, relacionando-me com Ele, sei que as minhas orações não mudam a Deus, mudam a mim mesmo (C. S. Lewis). A oração não muda somente a realidade de uma situação, meu caráter também é transformado nessa relação de amizade com Deus, como orou George MacDonald: "Minhas orações meu Deus, fluem daquilo que eu não sou. Penso que Tuas respostas me fazem ser o que eu sou". Não existem técnicas ou fórmulas para orar, se não fluir naturalmente, a relação com Deus se torna conveniente, onde sou cristão porque quero ser abençoado e ir morar no céu, não porque encontrei em Deus um amigo.
Um relacionamento é formado mediante o diálogo, dia após dia, não através de momentos proporcionados por retiros e congressos. Intimidade com Deus é ir comprar pão com Ele, ir ao cinema ou surfar na internet com Ele, é “quebrar a cara” e saber que Ele está comigo. Essa intimidade mediante a oração como tendo a companhia de Deus, revela um Deus “ordinário”, que até pode quebrar todas as cadeias e curar todas as doenças, mas que também vai ao supermercado comigo e enfrenta ao meu lado todos o males da vida.


Senhor, não sei o que eu deva pedir a Ti. Só Tu sabes do que eu preciso.
Tu me conheces melhor do que eu conheço a mim mesmo.
Oh, Pai, dá ao teu filho o que ele mesmo não sabe pedir.
Ensina-me a orar. Ora em mim.
Arcebispo François Fenelon.

5 comentários:

Vitor Hugo da Silva disse...

Rodrigo!

Possuo a mesma visão, tanto que já havia escevido algo parecido em meu BLOG. Porém, seu texto nos traz uma clareza com muita propiedade.

Muitos ainda insistem em dizer que devemos orar em tal hora, em tal posição, com tais palavras. Mas, não consigo ver padronização para a oração. Ninguém ensaia uma conversa, mas conversa aquilo que vem a mente. Assim vejo a oração, você não deve se preparar, ensair, esquematizar.

Max Lucado (não ria!) escreveu algo lindo e profundo, ele disse: "Você deseja saber como aprofudandar-se em sua vida de oração? Ore. Não se prepare para orar. Apenas ore. Não leia sobre oração. Apenas ore. Não frequente conferências nem se comprometa em discussões sobre oração. Apenas ore".

Lindo texto.

Deus o abençoe!
Vitor Hugo

Vitor Hugo da Silva disse...

Onde se lê: "escevido" é escrevido. E "propiedade" é propriedade.

... disse...

Olá Vitor,

sobre o Max Lucado, tudo bem, pois o livro Simplesmente como Jesus dele foi edificante pra mim no inicio da minha caminhada, assim como Ele escolheu os Cravos. Hj em dia nao o leio mais, mas recomendo sempre esses dois livros.

e realmente, orar só se aprende orando e é uma coisa muito pessoal. mesmo assim, a oração ainda q uma prática pessoal, me envia para o próximo, ou seja, a oração é quando recebo para dar. Jesus orava para manter comunhão com o Pai, pois dessa comunhão é que seu ministério se sustentava, e seu ministério era para o próximo.

paz

Mario disse...

Muitas vezes nos achamos culpados por não orar, ou, por orar pouco e etc. E se não cuidarmos, essa amizade com Deus (através da oração) pode se transformar em obsessão, culpa, paranóia e uma forma de aplacarmos a ira de Deus sobre nós, tipo: orei uma hora(01:00) hoje, fiz minha parte. Por isso transcrevo abaixo a fala, que elucida a diferença entre o culto caananita à Baal e o que Deus, através do profeta Oséias, espera do seu povo:

"Deus não é Baal, o que governa à força, mas sim Ish, aquele que se relaciona em amor...Deus não impõe sua presença sobre a humanidade. Apenas se o procurarmos poderemos encontrá-lo procurando por nós”.
(Rabino Jonathan Sacks)

Mario disse...

Rodrigo,

Deus lhe ilumine sempre, vejo vc como teólogo de uma nova geração, que como diz o Gondim, ousa pensar fora da "caixinha", mas sem perder a essência da revelação, que é Cristo e a Palavra!

Fique na Paz do Senhor!

Mario

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